MODOS DE PENSAR, MODOS DE FAZER | EMENTA

MODOS DE PENSAR, MODOS DE FAZER

Cesar Shundi
Francisco Fanucci

“Se podemos dizer que a arquitetura tem um significado poético nós precisamos reconhecer que o que ela fala não pode ser independente do que ela é. Arquitetura não é uma experiência que pode ser transmitida por palavras depois. Como um poema, ela se configura como presença, que se constitui como meio e fim em sua experiência.”

PÉREZ-GOMES, ALBERTO. The Space of Architecture: Meaning as Presence and Representation

 

Podemos afirmar que estamos vivendo uma crise na cidade contemporânea?

Uma crise na arquitetura da cidade contemporânea?

Por um lado há que se reconhecer que há pesquisas e projetos de arquitetura  que  refletem essa preocupação, nos âmbitos acadêmico e profissional mas que, entretanto, pouco se concretizam e, portanto, pouco contribuem para transformar a realidade de nossas cidades.

De outro,  arquitetos – como parte do corpo técnico da sociedade – têm produzido um volume expressivo de toda sorte de projetos responsáveis por boa parte do que se construiu nas últimas décadas em nosso país, em processos regidos por políticas públicas muitas vezes equivocadas ou por interesses mercantis privados que terminam por conformar cidades – o habitat humano por excelência – caóticas, fragmentadas, hostis.

Em paralelo aos fatores determinantes de caráter político, social e econômico do mundo contemporâneo, um dos pontos ligados a essa questão certamente reside no descolamento do projeto em relação ao processo da construção civil como um todo, dividindo a arquitetura da cidade em universos paralelos não conectados, entre os pou cos projetos para a cidade que desejamos e a estrutura responsável pela produção da cidade atual.

 

Como reaproximar estes universos?

Nossas melhores referências, que residem na produção dos mais importantes arquitetos que atuaram em distintos momentos e circunstâncias históricas, nos revelam a impossibilidade da separação entre o pensar e o fazer, a incontornável coerência entre a reflexão crítica e a praxis.

MODOS DE PENSAR, MODOS DE FAZER é, antes de um tema, um mote proposto para o Estúdio Vertical para, por meio da experiência coletiva, explorar a diversidade requerida para ações arquitetônicas comprometidas com a busca de caminhos possíveis para a cidade contemporânea a partir da reaproximação entre as instâncias das idéias e de sua concretude.

Esta proposta procura também reafirmar a condição do EV como espaço de síntese do conjunto de reflexões dos estudantes da Escola da Cidade, neste semestre alinhada  – como contraponto – às investigações em curso no âmbito do projeto CONTRACONDUTAS:

“O Projeto Contracondutas se origina de uma atuação do sistema de justiça do trabalho dentro das ações de combate e erradicação do trabalho análogo a escravo na construção do Terminal 3 do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em 2013. Com a aprovação do Ministério Público do Trabalho, a Associação Escola da Cidade ficou encarregada de elaborar um projeto amplo e público que buscasse problematizar, difundir e transformar o conhecimento e a realidade de problema-enfrentamento nesse procedimento de justiça a partir de uma abordagem sobre a questão do trabalho análogo a escravo na contemporaneidade.

 Com duração de um ano (maio de 2016 a maio de 2017), o projeto Contracondutas foi idealizado por uma equipe interdisciplinar de profissionais no âmbito do ConselhoTécnico, e opera como dispositivo que atravessa diversas atividades didático pedagógicas da Escola da Cidade – tais como o Seminário de Cultura e Realidade Contemporânea, o programa de Estágios de Pesquisa Científica e Experimental –, ao mesmo tempo em que incorpora e provoca indagações acadêmicas, jornalísticas e artísticas, projetando-se em direção ao debate público do tema e impactos na cidade, nas relações sociais, na ocupação do território, nos fluxos migratórios, nas políticas públicas e nas produces culturais.”

 http://www.ct-escoladacidade.org/contracondutas/

 

Como referência para o início dos trabalhos, podemos indicar a produção dos arquitetos e professores convidados para o Seminário Internacional a ser realizado entre os dias 03 e 07 de abril, quando serão realizadas conferências (durante o primeiro tempo) e na segunda rodada de avaliações do EV, a serem realizadas em conjunto com orientadores e convidados.

 Diante das inumeráveis possibilidades que se abrem, mas também das incertezas inerentes a este período de transformações, pretendemos investigar as possibilidades da diversidade operativa do projetar atual por meio de reflexões sobre modos de pensar e fazer a cidade, entendida como lugar onde vivemos, nosso habitat, em qualquer de suas diferentes configurações, desde os lugares privados aos espaços públicos.

Propomos para este semestre um exercício LIVRE: nas escalas do objeto, do edifício ou da cidade, no campo do projeto ou da teoria, desde que composto, em cada uma das quatro entregas, de textos acompanhados de desenhos, croquis, modelos, imagens ou qualquer outro meio que expresse ou represente o processo de sua concretização, buscando a aproximação e a coerência entre o discurso e o projeto, entre idéia e realização.

O foco do EV deste semestre no mote  MODOS DE PENSAR, MODOS DE FAZER  parte, assim, da alienação a que tem sido submetida a maioria da prática de projeto arquitetônico atual em relação ao reconhecimento e afirmação da arquitetura como artefato, como objeto construído e como ação transformadora no mundo real em que vivemos.