mpmf_g28_outras narrativas: o desenho como ato

Bruna Marchiori
Catarina Calil
Marcelo Jun Yamaga
Manuella Leboreiro
Victoria Menezes

ETAPA 4

resumo e considerações

Inicialmente, o processo investigativo do projeto se deu no campo da linguagem e de que forma esse meio sistemático influencia o modo de ser, pensar e fazer da natureza habitual de um indivíduo. Através de uma digressão presente no tema de TFG de uma das integrantes – a escola e as formas de apropriação física e subjetiva desse espaço após as ocupações secundaristas de 2015 -, surgiu o interesse de trabalhar com o mobiliário escolar – a carteira – e suas diversas (im)potências.
Para falar sobre escolas e seu espaço, precisamos falar de desenho – desenho arquitetônico, mas também de seu mobiliário. A carteira escolar remete a tempos distantes, e sua etimologia deriva de carta (do grego khártēs, do latim charta). Esse mobiliário antigo era ligado a pessoas da alta sociedade ou do clero, visto que seu uso era extremamente nobre – apenas quem sabia ler e desenhar poderia escrever nos papiros, papel muito caro, e exerciam funções como cartógrafos ou copistas. Não precisamos nos aprofundar tanto em História para perceber que o desenho do mobiliário escolar não teve expressivas alterações desde então – e sua função?

outras narrativas se divide em
1. o desenho como programa;
2. o desenho como subversão do programa;
3. o ato político como desenho;
4. o desenho como ato.

A pesquisa explorou ao máximo o desenho da carteira escolar e o projeto vê, em sua própria limitação simbólica e ergonômica (funcionando como um instrumento de controle clássico), a possibilidade de abstraí-la ao extremo: extraindo um novo_possível mobiliário modular, móvel, multiuso e multidirecional, objeto-dispositivo que medie novos usos e crie outras narrativas.
Com grande satisfação, o que parecia ser somente um ensaio teórico que alimentaria um trabalho de finalização de graduação, outras narrativas encontrou outros caminhos e criou outros desdobramentos possíveis. A equipe participou da ocupação inicial da Praça Aberta – Casa de Todxs, em 28 de abril de 2017, provocando uma grande reviravolta no processo de trabalho.

A resultante do projeto é o objeto-dispositivo.

o processo

1. o desenho como programa

Após o primeiro momento de discussão e reflexão em grupo sobre como o universo da linguagem seria inserido na estrutura do projeto, delimitamos impulso inicial do projeto – e uma das mais importantes para o processo.Escolher o objeto carteira escolar para analisar e investigar sua história trouxe um universo de informações visuais muito rico. Conforme a catalogação do objeto era feito, um levantamento fotográfico sobre as diversas salas de aula ao redor do mundo ganhou corpo. Agora o olhar era sobre o conjunto de objetos e sua conformação espacial: como uma estrutura tão antiga de sala de aula ainda é implantada nos dias de hoje, nas mais distintas culturas e contextos sócio-econômicos? E esse modelo tradicional realmente funciona? A carteira escolar, embora não tenha evoluído conforme todas as tecnologias e métodos novos de ensino (comprovados), continua sendo o símbolo tradicional da escola.

2. o desenho como subversão do programa

Aqui, o trabalho surgiu com outra pergunta que propôs um divisor de águas: quem são as pessoas que buscam inovar no ensino? E de que forma é feito espacialmente? Vimos que as experiências pedagógicas alternativas, em geral, não modificavam tanto o mobiliário escolar em si, mas já promoviam sua redistribuição no espaço e/ou outras variantes físicas (luz, cor, som etc.) que contribuíssem para o aprendizado.

3. o ato político como desenho

Entende-se como “ato político” a manifestação do indivíduo, o ser político, na sociedade. O recorte foram os protestos e ocupações secundaristas das escolas paulistanas entre 2015-2016. Aqui, o trabalho aponta que os manifestantes ressignificaram a carteira escolar, não somente enquanto mobiliário, mas como um símbolo de luta e resistência. Os ‘trancaços’ (bloqueios de ruas e avenidas com carteiras escolares) e barricadas eram uma prática sui generis e tiveram impactos diretos na forma como os estudantes se organizavam e se enxergavam enquanto agentes de transformação. Quais foram os reflexos na espacialidade do ambiente escolar para os estudantes? [tema geral de pesquisa – tfg bruna marchiori]

4. o desenho como ato

Na parte final desse trabalho, surge um encontro fundamental para a conclusão deste. Em 28 de abril de 2017, Greve Geral, a FLM (Frente de Luta por Moradia) + diversos coletivos culturais, ocuparam um terreno público abandonado em pleno centro de São Paulo. Ao lado da Ladeira da Memória (Vale do Anhangabaú), foi inaugurada a Praça Aberta – Casa de Tod@s. O convite a participar da ocupação e das inúmeras reuniçoes que se sucederam foi bem-vindo para o andamento do trabalho, visto que as expectativas coletivas para esse terreno é que seja um espaço público de fato e qualidade, em sua essência, e tenham atividades de todos os tipos, inclusive aulas públicas (ou aulaços, como tem se popularizado nas manifestações dos últimos anos no Brasil).
Desenhando e atuando coletivamente naquele espaço, ainda que com croquis e reuniões com moradores do entorno, esse processo alimentou a etapa final do trabalho e a surge primeira proposta, enquanto equipe de estudantes de arquitetura, para a Praça Aberta: um objeto-dispositivo modular, móvel, multiuso e multidirecional que permita, criativamente e de forma coletiva, que as pessoas se apropriem e criem suas próprias narrativas – outras -, de acordo com as necessidades: uma arquibancada modular.

o objeto-dispositivo surgiu a partir das demandas levantadas em assembleia geral na Praça Aberta, em 30 de abril de 2017. É dispositivo[1] enquanto mediar as relações espaciais presentes e desconstruir a rigidez e disciplina de nossos corpos. Uma “arquibancada” que não permite somente a mirada direcionada, mas múltipla e que se constroi a partir de quem a utilizar e para que. É uma estrutura de suporte que prevê, de início, três modos de ser ativada: como arquibancada (esporte, teatro, leitura, aulaços públicos), como roda (aulaço público, teatro, sarau, conversa) e como barraca (festa, exposição, bancada, comunicação). Dessa forma, ativa-se em relação ao entorno e a ela mesma.

A construção do objeto se dá em duas etapas e suas combinações_narrativas são inúmeras. O objeto surge a partir de dois módulos (4250x1900x1100mm) sob rodas, feitos de um sistema estrutural tubular de aço (50x50_2,65) soldado. As conexões se dão a partir da composição dos tampos [paineis de chapa dobrada de aço] do objeto (j – 2000x650x50mm – e k – 1000x650x50mm), cuja estrutura tem como referência os pisos de andaime.

teste iso2 iso arquibancada iso barraquinha iso aula

ato
[lat. actus]
a.to
sm sing e pl
1 algo feito, parte de uma obra, impulso
2 agere levar a, guiar, colocar em movimento

[1] ao longo do trabalho, uma das principais referências de projeto e posicionamento profissional foi a artista italiana Céline Condorelli. Obras estudadas: “structure for reading” (2012-13), “structure for public speaking” (2012-13), “the double and the half (to Avery Gordon)” (2014), “conversation piece” (2016)

ETAPA 3

(1) o desenho como programa
(2) o desenho como subversão do programa
(3) o ato político como desenho
(4) outras narrativas : o desenho como ato

Durante a etapa do projeto, ao tensionar o desenho da carteira escolar, encontramos um desafio: como distorcer esse objeto para propor outras narrativas? Analisar e problematizar sua materialidade não bastaria mais (1 a 3). Era necessário recorrer a outras referências, não encontradas na tríade arquitetxs_pedagogxs_estudantes.

Abstraímos, de início, o tal nome: carteira escolar, não mais.

Então, quem distorce objetos cotidianos e propõe reflexões críticas acerca de suas materialidades e espacialidades? Artistas (agente 4).

Tivemos como referências as instalações de Abraham Poincheval[*], Taro Izumi[*] e Céline Condorelli [*, **]. A última, entrevistada em 2016 por Adriano Pedrosa para a exposição Playgrounds 2016 no MASP, responde quando questionada sobre a articulação entre arte e arquitetura:

The encounter with a set of ideas or an object happens through something that is often a physical device, which is showing or displaying something. That is also an encounter between art and architecture in some ways, but I don´t like disciplinary separations. I am interested in framing, in the structure underlying the way things appear to us, which is often part of something that we take for granted. Things in the world come to us mediated by other things, by actions that often remain invisible to us because we are trained not to see them. (CONDORELLI, C. 2016)

Ao passo que já ensaiávamos abstrações desse objeto, passamos a entendê-lo como um dispositivo, uma estrutura de suporte/mediação para ativar um espaço.

Abril Vermelho
Paralelamente, o clima político do país seguia em conflito e luta. As manifestações tomavam as cidades e redes sociais conforme a GREVE GERAL (28ABR) se aproximava. Eis que um convite surge a apenas uma semana do dia 28 de abril: ocupar um terreno público abandonado há mais de uma década no coração de São Paulo – Ladeira da Memória/Vale do Anhangabaú. O grupo que reinvindicava a ocupação era da Frente de Luta por Moradia (FLM), localizados no Residencial Cambridge (onde foi filmado o longa-metragem “Era O Hotel Cambridge”, 2017)… mas não ocupavam para ter moradia! Ocupavam para denunciar o abandono desse terreno com mais de 900m2 no miolo de quadra entre o Terminal Bandeira e a Ladeira da Memória. Local onde já foi um grande camelódromo há mais de 10 anos, até então encontrava-se cheio de entulhos, lixo e mato – contribuindo para o aumento de pragas na região.

Na madrugada da sexta-feira, 28 de abril de 2017, mais de 300 pessoas ocuparam o terreno onde nasceria a Praça Aberta – Casa de Todos. Após ocupar – limpar – esvaziar – convidar os vizinhos, comerciantes, coletivos parceiros; era hora de abrir a CASA! Desde domingo, 30 de abril de 2017, a Praça está com uma programação diária, ativando e construindo gradativamente este espaço público.

A ocupação não é por moradia.
É pelo direito à cidade, ao espaço público de qualidade!

mobiliário urbano, oficinas, aulas públicas, teatro, música, cinema, parquinho, ginástica, quadra poliesportiva, iluminação pública, wi-fi livre, sarau, espaços de leitura, contação de histórias, futebol

são algumas das expectativas levantadas na primeira Assembleia Geral da Praça, realizada no domingo (30/04).

Como uma equipe de estudantes do Estúdio Vertical, cuja pesquisa do semestre baseou-se no tensionamento e reflexão sobre a (pouca) evolução do desenho e conceito do mobiliário escolar e os espaços opressores das salas de aula ao redor do mundo.
Questionamos: o que é, afinal, a sala de aula do século XXI?
Além disso, um breve olhar sobre a luta secundarista (3) bastou para entender que ouvir a voz dos estudantes é fundamental e nos ensina que a resistência, a luta e a coragem das ocupações de 2015 e 2016 marcaram uma revolução no país – não devemos mais olhar as escolas da mesma forma.

Da mesma forma que não devemos mais olhar esse vazio urbano de São Paulo e não lutar para que ele mantenha-se ativado e devolvido à cidade.

Nessa ocupação urbana-cultural-artística, a demanda é imensa e o tempo é urgente.
Assim, como grupo que assistiu diversas ações e atividades surgirem do “nada” (como que brotando do chão), com escassez de mobiliário e recursos, propomos um objeto-dispositivo como mediador de algumas vontades que ouvimos na Assembleia Geral: uma arquibancada.

Desde o início do projeto, uma postura do grupo foi buscar não utilizar a palavra “ideal” no vocabulário. Portanto, não acreditamos em um “objeto-ideal”, de design autoral e que vá resolver todas as demandas levantadas. Inspirados em dois objetos específicos [* e **], teremos aproximadamente 4 semanas para executar essa peça – e, de forma otimista, dois módulos desse objeto.

Pretendemos ver e registrar esse objeto no espaço e como a Praça se apropriará dele até o final do semestre. Este objeto, a arquibancada, que (pode) permitir múltiplos usos e configurações no espaço de forma democrática.

ETAPA 2

modos de pensar, modos de fazer

este trabalho é uma lista de invenções.
um inventário do desenho.

“Uma lista de invenções dos limites que o homem estabelece no mundo. Desenhar, em astronomia, na dança, na literatura, nas artes, na arquitetura é criar limites. Diante da impossibilidade de compreender a magnitude das fronteiras da natureza, o homem, ao inventar a linguagem – que o define -, inventa seus próprios limites, que dão a medida de sua insignificância, mas também de sua capacidade de ir além dela. [1]

Compreendemos que a linguagem está presente multidimensionalmente no pensar e fazer, permeando o processo cognitivo e criativo do indivíduo e dos grupos.

o desenho como ato – entendemos que o modo de projetar na arquitetura, apesar do seu caráter multidisciplinar, nem sempre dialoga com as outras áreas ou seus usuários. Quando falamos de escolas públicas, a tirania do desenho e do espaço se fazem presentes num processo de redução: cultural, de áreas, material e tudo se volta para o empobrecimento do espaço. [2]

(1) o desenho como programa – o projeto, sobretudo no ambiente mínimo – a sala de aula -, tem inúmeros exemplos ao longo da história que somente reforçam o mesmo modelo tradicional. Nuca atrás de nuca, os estudantes seguem tendo aulas em suas carteiras. Objeto este que, atribuído de um significado, foi escolhido para ser analisado neste projeto. O que uma carteira escolar comunica?

(2) o desenho como subversão do programa – após analisar as diferentes tipologias de carteiras ao longo da história e a massiva replicação pelos continentes da tradicional sala de aula; trazemos alguns exemplos de arquitet_s e pedagog_s que quiseram inovar, experimentar alternativas e subverter o clássico desenho colonizado e europeu.

(3) o ato político como desenho – nesta terceira parte, chegamos ao clímax: quando os agentes subversivos do desenho não são os detentores de poder (arquitet_s ou pedagog_s), e sim seus usuários (estudantes). Em 2015 e 2016, pela primeira vez no Brasil, os estudantes tiveram voz sobre o que uma escola significa – a Luta Secundarista teve seu estopim em São Paulo, em 09 de novembro de 2015, e rapidamente as ocupações tomaram o país (mais de 1000 escolas ocupadas no ano). Selecionamos uma sequência de fotos em que a carteira escolar é modificada pelo ato político – elas alimentam o espírito de luta, modificam a espacialidade da escola e questionam as novas funcionalidades do objeto.

[1] JAFFE, Noemi. In: Disegno. Desenho. Desígnio. São Paulo: Ed. Senac São Paulo, 2007
[2] LIMA, Mayumi W. de Souza. A Cidade e a Criança. São Paulo: Ed Nobel, 1989
[3] Foto de destaque: Reprodução/Facebook – “paródia com as salas de aula superlotadas do alckmin: carteira-beliche / via @bruno kurru” novembro 2015 – São Paulo/SP

ETAPA 1