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1ª Etapa

O início desta viagem começa com uma dedução.
Toda ação arquitetônica implica em uma operação.
Da adição de ordem à subtração da desordem.
Da subtração de antigas ideias à adição de novas ideias.
Da subtração do caos à adição de sentido.
Compreender esta operação significa refletir sobre a relação transformacional que carrega em si.
Seja positiva ou negativa, esta operação situa-se sempre no campo da alteração, da mutação e do deslocamento.
Uma arquitetura aberta à transformação é uma arquitetura aberta ao tempo, ao imprevisível, ao acidente e ao futuro.
Sua frágil presença revela seu estado eternamente efêmero.
Seu estado de ser implica sempre em seu fim e seu começo, sua vida e sua morte.
É um estado de equilíbrio à beira do colapso.
Sua história é feita do limite tênue entre memória e esquecimento.
Esta arquitetura consiste em sua própria experiência, dentro do imediato, do aqui e do agora.
A ação proposta assenta-se na procura por um equilíbrio dentro da aparente contradição de construir o frágil.
De forma a colocá-lo em tensão e torná-lo uma experiência vivida, tangível, prática, construída, real e sensível.
Esta ação pressupõe uma viagem mental e física: um deslocamento metafórico e literal.
Segundo Deleuze, “já não é a ilha que se separou do continente, é o homem que estando sobre a ilha encontra-se separado do mundo”.
Este trabalho, portanto, assume este caráter duplo de uma viagem até uma ilha.
Construir numa ilha, por sua própria natureza, pressupõe esse deslocamento.
Parte-se da ideia para a matéria, do continente para o mar, do estável ao instável, do conhecido ao desconhecido.
A Ilha do Maracujá, na qual trabalharemos, não é exatamente desconhecida. Sabemos a origem óbvia de seu nome e suas coordenadas geográficas.
Como escreveu Saramago em ‘O conto da ilha desconhecida’, “[…] todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcamos nelas”.
De modo singelo, a viagem número um, da qual chamaremos carinhosamente de expedição, propõe um reconhecimento sensível.
A expedição número dois, por sua vez, consistirá em uma experiência tangível: o assentar, o fundar, o edificar e o habitar.
As expedições seguintes, metafóricas ou literais, são incertas tanto quanto a arquitetura que acreditamos.

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I. INTERLÚDIO

Enquanto lê-se esse texto, espero que tenha em mente o quadro “o caminhante sobre o mar de névoa”, com aquele homem sobre uma rocha em desafio as ondas que devolvem o escárnio na mesma medida.

A ilha do maracujá foi, com certeza, o lugar mais inóspito que já me aventurei em toda a vida. Também é certo que não corremos perigo algum em nossa estadia lá. Nem sempre é o risco de vida, ou a situação limite que nos colocam em estado de alerta constante, ou que exigem o máximo de nós. A ilha, apesar de ter uma geometria bastante peculiar – que nos obrigava a estar com os músculos do corpo tensionados, para buscar algum equilíbrio em seus declives – era um lugar aprazível. O que particularmente me trazia incômodo era a sensação que ela não nos queria ali. Como um velho rabugento e solitário, que prefere conviver com os pássaros a dividir seu tempo com os seres humanos.

Lembrei-me de um amigo que, certa vez, disse que o fato do petróleo estar enterrado tão fundo, sob camadas e camadas de terra e de tempo, era um sinal do planeta de que não devíamos mexer naquilo: “-Vai dar merda”, ele dizia, citando uma fala inventada que ele imaginava ser a mensagem vinda da própria geologia.

Quando vi aquele conjunto de rochas, que se assomavam no horizonte, não me lembrei disso. Afastada algumas centenas de metros do continente, a ilha parecia repousar serena na linha do horizonte, em quanto o pequeno barco, que levava seus últimos três passageiros daquele dia, ia saltando violentamente de onda em onda. Revelou-se a nós, após nos afastarmos a alguns minutos da costa, surgindo de trás de um morro. Não me vestia em nada que lembrasse o homem do quadro: Calção de banho, a bolsa da câmera presa às costas, meio que enrolada com um par de botas unidas pelos cadarços, que eu havia pendurado no pescoço. Sobre tudo isso ia o colete salva-vidas. Já ao longe avistamos nossos companheiros de expedição que haviam ido na primeira viagem do barco com todas as nossas bagagens. Seus corpos diminutos, a muitos metros do nível do mar, nos deram a real dimensão daquele rochedo que, até então, nos parecera muito achatado visto de longe, quase domesticável. Responderam nosso aceno ainda a distância e puseram-se a descer prontamente, se aproximando cada vez mais da linha da água. Quando nos aproximamos a distância de um grito – o equivalente marítimo àqueles seis andares que Lúcio Costa imaginava uma mãe chamando o filho para o jantar – um deles gritou: “- Põe a bota!” E outra vez: “-Põe a bota!!!” Sem entender ao certo o motivo de tamanha urgência que havia transformado aquele gentil aceno em ordens de um capitão de navio, pus-me a tentar desvencilhar meu calçado daquele emaranhado de dispositivos de segurança. Antes de vestir meu primeiro pé, entendi subitamente – com a mesma velocidade e força de um soco no estômago – que as pedras que cercavam a ilha não seriam desviadas para um atracar tranquilo e favorável. Aqueles dentes rochosos, que ora sumiam, ora reapareciam no mar, seriam nossa porta de entrada para a terra firme. E junto com essa iluminação elas emergiram em minha cabeça: VAI DAR MERDA!

O que se seguiu foi muito rápido: o barco avançou contra um muro de pedra com mais ou menos minha altura, cheio de furos e buracos cavados pelo resultado dos pontos frágeis do minério e a insistência das ondas. De cima da proa do barco, meu primeiro amigo saltou para as pedras no intervalo das ondas, com uma corda amarrada ao barco entre as mãos. Logo em seguida, a outra passageira pulou o banco que eu estava sentado, se apoiando em mim que desesperadamente vestia a segunda bota. Esperou o momento oportuno da maré e, com nosso amigo mantendo o barco tão firme quanto possível, se juntou a ele em cima da formação rochosa. Aproximei-me da proa com os pés ainda se acostumando a nova situação. Firmei-me como pude no nariz metálico que se agitava molestado pelas ondas que lhe atingiam de baixo: “- Só vem na certeza!!!” A segunda ordem do dia era ainda mais complexa que a primeira. Afinal, qual é a certeza que temos nessa vida? Gostaria de dizer que pensei em várias coisas naquele momento, ou que fiz algum gracejo espirituoso. A história ficaria melhor, tenho certeza! Mas estaria mentindo. Tudo que fiz foi me jogar contra o muro na pausa da maré mais longa que pude imaginar e enfiar meus pés cobertos e minhas mãos em alguns daqueles furos artesanais. Do fundo de um buraco um ouriço negro me olhava, como um olho espinhento de dentro de sua órbita de pedra. Agora já firme, procurei ter cuidado aonde colocava meus dedos, a fim de não encontrar o outro olho. Ergui-me até o topo e dali seguimos pulando de pedra em pedra no mar revolto. Fazer o caminho requeria certa atenção e habilidade.

As rochas eram cobertas de uma craca que, seca, machucava a pele. Cortei meu dedo em uma delas. Não tenho interesse algum aqui de me vangloriar do fato, ou de buscar piedade do leitor. A única função narrativa deste ferimento é sua descrição. Primeiro devo admitir que ele era pequeno de fato. Mas o que me chamou a atenção foi a profundidade com que aquela textura na pedra cortava e em como o talho era limpo. Ao sentir a dor – que também não foi muita – imaginei logo um raspão, ou aqueles esfolados feios. Em seu lugar encontrei um corte claro e preciso de um bisturi.

Armamos acampamento com os últimos momentos de sol que nos restavam. Alguns retoques finais foram feitos a luz de lanternas. A noite havia caído e nos manteve fixos no único lugar que conhecíamos bem o suficiente para nos aventurarmos sem luz.

Delimitado por quedas bruscas do terreno, que vezes terminavam no mar ou em outras pedras, e por uma muralha coroada com uma rocha, que parecia um dragão a nos observar lá de cima, o sítio a nós concedido de mau grado pela ilha era um plano inclinado, com treze passos de profundidade por quatro de largura. Sua inclinação levava a outra, ainda mais íngreme, e esta nos empurraria direto as ondas que se chocavam contra as rochas. Uma espécie de canto da sereia geográfico, que levava os desavisados a morte certa.

Sentamos como pudemos naquele relevo, aonde nada se encaixava com alguma angulação conhecida. Tomamos um trago de uísque e acendemos um charuto. Aquele ritual nos trouxe a sensação que enfim se havia estabelecido uma trégua com a ilha, mesmo que momentânea.

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nós e o barco felipe

 

2ª Etapa

23˚46’23’’ S 45˚48’00’’W  Pequena formação rochosa emersa defronte a conhecida Praia Brava, cuja vegetação predominante é formada por maracujazeiros nativos (Passe flora sp.) que nomeiam o local. Não passa de um penedo diminuto, conhecido por quem frequenta a região.

Essa breve definição, acompanhada das coordenadas geográficas, imagens de satélite e uma foto a distância, foram o suficiente para que começássemos nossa viagem à ilha desconhecida. A experiência-intervenção zarpa nesse instante: ao imaginar a ilha, surgem seus primeiros contornos, e depois de algumas semanas de planejamento, a expedição se concretiza. Ao ficarmos frente a frente com a Ilha, aquela ‘pequena formação rochosa emersa’ deixa de ser desconhecida e adquire um significado outro. Ao habitar, intervimos.

O que resta daquelas quase 24 horas de embate com as pedras, com o mar e com o sol, apresentamos agora. Exploramos o território e procuramos registrar o instante em que aquela desconhecida ilha desaparecia e, no seu lugar, uma outra se desdobrava sob nossos pés. Foi preciso lançar mão de mais de um recurso para essa tarefa: fotos, desenhos, relatos, objetos, sons, vídeo e poesia. Cada linguagem, com sua especificidade poética, procurou representar algum aspecto para esse retrato fragmentado que construímos. A mala de viagem reúne todo o material e registra, com certa delicadeza, aquele momento que nunca voltará, a passagem do desconhecido ao conhecido e o início desta viagem.

 

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Na próxima etapa haverá, certamente, uma outra Ilha do Maracujá. Talvez uma que mais nos pertença, talvez uma que mais nos surpreenda. O fato é que o habitar já não será mais o mesmo, e com isso, nossa intervenção sobre ela será outra. O fogo, que aparece de forma tímida na primeira viagem, deve adquirir outra proporção, como se passássemos do descobrimento à fundação. Uma pira no alto da Ilha, marcará presença naquele território ainda hostil, mas agora familiar. A ação poderá ser vista do continente, como um leve sopro que indica que ali há alguém.

O fogo é a intervenção humana por excelência. Por sua natureza invariavelmente frágil e agressiva, ao mesmo tempo, representa não só a origem, como a fundação e a própria destruição. Como suporte, outro elemento fundamentalmente humano, construído e, portanto, estranho, será trazido de fora e instalado na Ilha: um prato metálico, de forma e materialidade ainda incertas. Depois que o fogo se consumir, junto com seus resíduos, sobrará apenas essa peça, entregue aos anseios da própria Ilha e acessível aos próximos exploradores, se juntando as garrafas de plástico que se acumulam no meio das pedras.

Ao mesmo tempo em que insistimos em nos colocar diante desse punhado de terra firme isolado, a Ilha tem sua potência silenciosa que se coloca diante de nós. O mar, em eterno movimento, se choca contra as pedras, esculpindo-as com fúria incansável. As plantas brotam onde podem e como podem. O sol, implacável, assiste a tudo isso em ciclos repetidos e intermináveis.

Como tentativa de materializar essa transformação intrínseca, sob a ação direta destes elementos naturais, as construções-intervenções são estrangeiras, estranhas, produzidas por nós, e, como nós: humanas. De um lado, o fogo, símbolo de nossa ação e nossa permanência na Ilha; do outro, a própria Ilha, agindo diretamente no objeto, numa construção dialética da experiência.

Mais do que uma arquitetura efêmera, tratamos de uma arquitetura frágil. Sujeita ao tempo e as intempéries, enfrentando o clima e a destruição lenta ou súbita. Defronte ao calor do sol e sujeita à imprevisibilidade do mar.

3ª Etapa

Revisitamos a Ilha do Maracujá diversas vezes, em nossa memória, depois da primeira expedição. Difícil era chegar a um consenso sobre as dimensões daquela pequena ilhota e de sua selvagem população de pedras canibais. Até hoje não sabemos ao certo a que altura ficaremos ao habitarmos nossa ilha derivada – ou ainda, como apelidamos gentilmente, nossa ‘ilha na ilha’. Tampouco sabemos quantos golpes serão necessários para vencermos as rochas e domá-las com fogo.

O fato é, cá estamos ilhados no continente. Devido aos fortes ventos e as bravas ondas somos impedidos de realizarmos nossa segunda expedição.

Quando o mar ainda era calmo, no fim do verão, nossas preocupações eram outras. Em meio às polarizações das manifestações políticas, imaginávamos voltar da ilha em meio ao caos. Chegamos a cogitar que sem sinal, sem notícias e sem sustos e surpresas, desatualizados a cada minuto que passava e com medo do que poderia sorrateiramente acontecer, talvez fosse melhor nem voltarmos. Fundaríamos lá mesmo nossa nação outra! Separados do mundo, para nossa surpresa, havia sinal e voltamos. De lá para cá, podemos dizer que as coisas do lado de cá se agravaram.

Era quarta feira, dia onze de maio, semana passada. Enquanto amarrávamos pela quinta vez as cordas que fazem a vez de piso dessa intervenção fundacional, o décimo quinto senador fazia sua fala na votação. Entre um nó e outro seguíamos pelo twitter a história se repetir como farsa, num 3G muito mais precário do que aquele que encontramos na Ilha do Maracujá. Alienados de tudo, nos orientávamos por aquele único canal de comunicação estabelecido com o continente dos grandes fatos. Conforme seguíamos essas constelações nos perdíamos mais e mais nos mares e marés dos humores políticos.

Poderíamos aqui falar de como essa estrutura triangular, constituída pela tensão de sua trama de cabos, flutuará sobre as rochas inclementes da ilha, tocando levemente três pontos de angulação incerta.

É o que se espera.

Mas num momento de total diluição das estruturas, é mais fácil fazer o artificial pairar em pleno ar do que buscar algum ponto de apoio na terra firme.

É passível e necessário fazer inúmeras críticas ao governo afastado, mas é impossível ignorar as tenebrosas sombras que se assomam no horizonte. Cercados por águas revoltas somos golpeados pela tempestade e não sabemos sequer aonde nos agarrar.

Se por um lado pouco nos incomodam as críticas de que esse trabalho não resolve as questões elementares dos problemas metropolitanos, não podemos negar a insuficiência desta intervenção frente à concretude dos fatos. Com o último nó atado, voltamos as nossas casas no momento que o quinquagésimo quinto senador espumava. Enquanto dormíamos com Dilma e acordávamos com Temer a Ilha permaneceu impassível.

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“ilha na ilha” / em processo from thiago benucci on Vimeo.

 

4ª Etapa

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O livro que marca o fim dessa jornada, e que apresentamos agora, trata de duas viagens, uma real e outra imaginária. O tempo de duração de ambas é o mesmo: noventa dias. Exatamente uma estação do ano, que começou no dia 20 de março, no equinócio de outono, e se encerrou no solstício de inverno, 20 de junho. O lugar escolhido foi uma ilha deserta, paisagem impregnada de camadas de significados mitológicos e testemunha clara de um eterno processo de transformação, onda a onda, pedra a pedra.

Aquele longínquo fim de semana em que acampamos na Ilha do Maracujá foi o marco inicial dessas duas jornadas. Uma parte de nós permaneceu na ilha, sem conseguir retornar ao continente, sofrendo uma espécie de metamorfose lenta. Outra parte voltou, e de cá continuamos imersos, aguardando uma janela de mar mais calmo para poder voltar pra lá. Enquanto isso, demos forma material às nossas divagações.

No primeiro momento, o que apareceu foi a mala de viagem. Objeto que encontramos para reunir toda a produção que desenvolvemos naquela expedição. Desenhos, fotos, relatos, poemas e vídeos, produzidos de forma espontânea durante o primeiro embate com a ilhota, serviram para organizar o imaginário que íamos formando e foi uma maneira, ainda que incipiente e sem edição, de dividirmos nossas experiências. Depois, já ilhados em São Paulo e impedidos de voltar para a ilha devido às condições meteorológicas e aos caprichos marítimos, partimos para a construção de nosso abrigo, que seria instalado na parte sudoeste das rochas, do lado oposto ao nosso acampamento. Tecemos uma rede com cordas de escalada, algo que pudesse ser montado com relativa facilidade em seu local definitivo. Que sustentasse os cinco integrantes do grupo de uma vez, com uma estrutura resistente e ao mesmo tempo uma arquitetura frágil, aberta ao tempo e às intempéries, suscetível aos ensejos da própria ilha e, eventualmente, de outros visitantes. Não tínhamos a intenção de proteger nenhum náufrago das intempéries. A rede é um abrigo metafórico, uma ilha armada sobre a própria ilha e foi apresentada no pátio da escola, em uma instalação, junto com o fogo, que marcaria o momento de fundação da Ilha do Maracujá, e foi projetado em um muro alto.

Noventa dias depois, findo o outono, o mar segue cada vez mais inquieto e nós permanecemos presos a uma jornada imaginária. A parte de nós que ficou e passou o outono naquele terreno inóspito, continua lá, agora parte da ilha. Sobraram os seus relatos, espécie de diário fragmentado, que narra de forma sensível o embate, real e fictício, com o sol, as pedras, o mar e a solidão. No livro que produzimos, resultado final do presente trabalho, as entradas do diário funcionam como fio condutor da narrativa, que sobrepõe essas duas viagens, intercalando os relatos com as derivas que tivemos durante o outono.