G38_Vila Maria Zélia

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Entender os lugares onde a cidade de São Paulo pode ser reconhecida nos levou a pensar na memória industrial da cidade, sobretudo das vilas operárias. Nesse sentido, escolhemos estudar o conjunto de edifícios da Vila Maria Zélia, o qual foi loteado e ocupado no passado industrial da cidade (1917) compondo a paisagem urbana do bairro do Belém.

Atualmente a vila maria Zélia ainda existe como o mesmo conjunto de edifícios – com exceção da creche, do jardim de infância, do clube de futebol e de 18 casas que foram demolidos – e ainda é ocupada pelas famílias de seus primeiros moradores. Além disso, os prédios de uso coletivo (armazém e boticário) estão sendo ocupados pelo grupo XIX de teatro e pela associação de moradores.

A partir de visitas e entrevistas que fizemos com moradores e integrantes do grupo de teatro, pudemos entender as disputas presentes naquele espaço, principalmente as que estão vinculadas ao tombamento dos edifícios. Todas as construções são tombadas pelo CONDEPHAT, apesar disso grande parte delas estão descaracterizadas ou em ruínas, o que deixa claro as dificuldades presentes no pós-tombamento, principalmente quando pensamos em patrimônios que são habitados.

Nesse sentido, nos propusemos a refletir sobre os edifícios de uso coletivo – os quais ainda são propriedade do INSS – e sobre as possibilidades de intervenção neles. Sobretudo quando entendemos que seus usos e sua materialidade em ruínas dialogam diretamente com o antes e o agora de São Paulo, provocando uma contradição muito simbólica entre estes dois tempos.

02

“A casa do trabalhador muda no tempo, assim como mudam a sociedade, o trabalho e o próprio trabalhador. É no contexto da metrópole de São Paulo, nos anos 1980, que ocorreram profundas transformações no mundo do trabalho, com indústrias transferindo-se para novos espaços e outras fechando ou demitindo mão de obra por força da reestruturação produtiva. Brás, Belém e Belenzinho, chamados no início do século XX de “outra cidade” ou “bairros do além-Tamanduateí”, a partir dos anos 1980 têm transformada a sua paisagem urbana com antigas unidades fabris tornando-se ruínas e, mais recentemente, condomínios residenciais. O emprego industrial encolheu, o operariado se reduziu e o desemprego aumentou. É nesse conjunto de novas condições que ocorreu o tombamento da Vila Maria Zélia, momento em que o mundo fabril já não era o mesmo dos primórdios da industrialização. Seria possível, nessas condições, querer preservar na íntegra a casa do operário, o qual, inclusive, já não é mais operário e, por vezes, se encontra ainda expropriado do mundo do trabalho fabril?”

SCIFONI, Simone. in: Rev. CPC, São Paulo, n.22 especial, p.176-192, abr. 2017.