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Bia Coimbra, Bruno Buccalon, Conrado Cavani, Felipe do Amaral e Sofia Villela

1ª Etapa

Sinistro

Na última década, vemos repetir-se em São Paulo uma série de casos semelhantes em instituições culturais: súbitos incêndios que destroem o patrimônio e apagam as luzes que nos permitem enxergar o passado. Porém, a recorrência dessa situação de subtração pública nos faz pensar que esses casos não podem ser tratados como puros incidentes, mas como reflexo de uma situação de fragilização na qual essas instituições tem se aprofundado.

O que acontece na cidade mais cosmopolita do país? Pelo que afirmam os especialistas ouvidos pelo EL PAÍS, o que há por trás desses casos é uma alta dose de burocracia nos órgãos públicos, uma dose ainda maior de falta de rigor nos procedimentos de segurança e até mesmo a existência de uma máfia conformada por empresas que se especializam em maquiar espaços para a vistoria dos bombeiros.

 

Em 2006, quatro homens invadiram o Museu Chácara do Céu, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, em plena sexta-feira de Carnaval. O movimento dos blocos de carnaval impediu uma ação mais rápida da polícia. Porém, o mistério (ou sucesso) do roubo não envolve apenas a astúcia dos ladrões. Em “A arte do descaso” (Intrínseca, 2016) a jornalista Cristina Tardáguila apresenta uma investigação profunda sobre uma série de indícios e mistérios que envolvem o caso do maior roubo de obra de arte do Brasil – e 8º do mundo, segundo o FBI. Nessa tarde de carnaval, foram levadas 5 obras de arte do acervo do museu: um Monet, um Dali, um Matisse e dois Picasso, avaliados na época em mais de 10 milhões de dólares. Cristina apresenta em seu livro o caso ainda sem solução e seus desdobramentos levantados por ela ao longo de dez anos.

O crime, que nem sequer teve seu inquérito concluído, permanece sob “investigação” da Polícia Federal, que continua a pedir prorrogação do prazo de conclusão. Os principais agentes envolvidos, que seriam capazes de reverter a imobilidade da investigação, já não tem mais alcance ou envolvimento no caso, que corre o risco de permanecer sem que se descubra mais qualquer informação sobre o paradeiro das obras de arte ou dos autores do roubo. O motivo revelado é simplesmente uma exaustiva sequência de descasos, que são apresentados minuciosamente no livro.

Em São Paulo, o que vemos é o acúmulo de notícias sobre casos de sinistros em edifícios de grandes equipamentos culturais – alguns com seguro, outros não –, mas que nos fazem pensar sobre o que os faz ser tão repetitivos. Elencamos abaixo os casos mais notáveis. O que se nota é como o fato desse sumiço, causado dos incêndios, pode levar o caso a uma situação irreparável, mas que ainda assim comumente permanece sem solução. O que vemos é uma sequência de casos de incêndios em instituições culturais da cidade de São Paulo e o seu recorrentes abandonos posteriores.

As narrativas dos eventos nos fazem suspeitar de traços em comum e causam desconfiança de que possa haver uma lógica capaz de encadeá-los, e inclusive considerar a hipótese de que um mesmo personagem possa estar envolvido em todos esses atos.


Teatro Cultura Artística

Teatro Cultura Artística (2008)


Instituto Butantan

Instituto Butantan (2010)


Memorial da América Latina

Memorial da América Latina (2013)


Liceu de Artes e Ofícios

Liceu de Artes e Ofícios (2014)


Museu da Língua Portuguesa

Museu da Língua Portuguesa (2015)


Cinemateca

Cinemateca (2016)


2ª Etapa

Construção narrativa

Etapa de elaboração de método de construção da estrutura narrativa sobre as ocorrências a partir de roteiro preestabelecido em texto:

G04_Raiva o incêndio [ROTEIRO]_EV201601_2ª entrega

 

 


3ª Etapa

A sétima pasta

O incêndio do Museu Paulista inaugura a etapa fictícia de um trabalho de levantamento de casos de incêndios em instituições culturais e de patrimônio. Não se trata de um fato acontecido. As chamas destruiriam a principal obra do acervo e atrasariam ainda mais a reabertura da instituição. Essa etapa procura refletir como fazem parte da estrutura de conservação e da gestão institucional da memória a perda repentina de documentos e a permanente reconstrução de significados.


Arquivo de incêndios

Um ensaio investigativo e ficcional
 
Em oito anos, a cidade de São Paulo registrou seis casos de incêndios em edifícios de instituições culturais. A investigação destas subtrações indesejadas aponta para casos de sinistros que envolvem descaso e incidente, e quase sempre, uma perda que se faz irreparável. Diante disso, este trabalho busca construir um novo imaginário através da projeção de um cenário inexistente capaz de adicionar outro sentido a essa realidade.

A constituição de um arquivo inicial recorreu a seis estudos de caso: Teatro Cultura Artística (2008), Instituto Butantã (2010), Memorial da América Latina (2013), Liceu de Artes e Ofícios (2014), Museu da Língua Portuguesa (2015) e Cinemateca Brasileira (2016). O levantamento de informações foi feito por consulta aos canais de imprensa e arquivos de notícias e imagens das instituições.

Romance policial. O trabalho de pesquisa foi inspirado pelo livro A Arte do Descaso, da jornalista Cristina Tardáguila, que investiga o caso inconcluso do maior roubo de obra de arte da história do Brasil, ocorrido no Museu da Chácara do Céu, na sexta-feira de carnaval de 2006. A narrativa revela uma trama policial em torno de uma disputa real sobre objetos de grande valor. A partir disso, optou-se por forjar um sétimo caso de incêndio que evidenciasse questões em comum com os casos anteriores.

Notícia em chamas. Em 17 de maio de 2016, notícias fictícias foram publicadas nas redes sociais pelos estudantes. O texto sobre a ocorrência do incêndio no Museu Paulista estava acompanhado por imagens de um cenário projetado com o edifício tomado pelo fogo, em meio a fumaça e o corpo de bombeiros. Após cerca de 3 horas, houve mais de 500 compartilhamentos e 15.000 visualizações, seguidos de comentários lamentando o episódio e criticando uma suposta situação de abandono das instituições culturais brasileiras. Um projeto de construções visuais críveis a partir de um fato inexistente que revelaram um medo real.

Museu fechado, museu incendiado. Ver um museu fechar sem planejamento não é tão diferente de vê-lo incendiar. O Museu Paulista é conhecido por estar alojado em um edifício-monumento que compõe o Parque da Independência, no bairro do Ipiranga, conjunto arquitetônico tombado como patrimônio histórico. O prédio é, portanto, uma das obras do acervo da instituição. Encontra-se fechado, desde 2013, quando foi interditado às pressas por ameaça de desabamento do forro.

O fechamento sem planejamento, com previsão de reabertura para 2022 teve também forte repercussão nos jornais. O museu é um equipamento da Universidade de São Paulo e contém vasto acervo de documentos textuais, objetos pessoais e peças artísticas relevantes na formação da identidade nacional. A restrição de acesso a esse material, mesmo que temporariamente, compromete a participação do público, que se sente apropriado e emocionado, e a hipótese de catástrofe coloca à prova um risco real.

Assim, o poder da imagem revela outras questões da visualidade nas intervenções em patrimônio: a frustração com restauro a portas fechadas e a repercussão negativa sobre ausência de informação sobre o trabalho em andamento.

Imagem falsa, falsa imagem. A manipulação de fotografias é um recurso que já foi utilizado na História para apagar registros oficiais. Esses mecanismos de (re)escrita da história através de mentiras revelam uma disputa entre poder e fragilidade. No caso do Museu Paulista, as imagens das chamas são um recurso de ficção com fins de verdade, divulgadas num formato jornalístico, com objetivo provocativo de colocar o leitor em alerta.

O suposto incêndio ainda destruiria completamente a tela de Pedro Américo Independência ou Morte!, que se encontra fixada permanentemente salão nobre edifício-monumento. Essa é também uma imagem que desempenha papel importante de construção visual do imaginário simbólico comum sobre a Independência do Brasil. Porém, ela retrata uma cena que possivelmente não existiu: Dom Pedro I com espada, tropas e cavalos, a bradar em trajes oficiais a independência às margens do Ipiranga.

Assim, o papel da encenação na construção da identidade nacional também é feito por operações que idealizam, distorcem, constroem e apagam, por meios visuais, uma imagem representação nacional.

Ter e manter. A ocorrência do incêndio é o coroamento da cultura de não manutenção, consolidada na prática arquitetônica. Todos os casos analisados corroboram com espaços inadequados, manutenção sem regularidade e descuido da conservação cotidiana. Alguns fatores dificultam a sua regularização diante da legislação vigente e muitas instituições sofrem com a burocracia na comunicação. Tal conflito exprime a urgência e a oportunidade de atuação de profissionais da arquitetura nas decisões interdisciplinares de atenção à conservação desses espaços de uso público.

A fragilidade institucional sobrepõe-se a resoluções técnicas, orçamentárias e jurídicas, sem ser capaz de apontar uma perspectiva de futuro. A ameaça de desastre é iminente.

Da invenção ao inventário. André Chastel se pergunta: “o desastre das destruições faz nascer um sentimento de urgência. […] Como identificar, classificar, ilustrar os milhares de edifícios e de objetos dignos de atenção?” O Arquivo de Incêndios tem como intenção ser um conjunto de informações, com seus próprios critérios e procedimentos, e com vocação para a difusão de um conhecimento que perde força depois que é esquecido pela imprensa. Trata-se de uma ação de proteção para os edifícios ameaçados pela subtração incendiária. Porém, por mais precário que seja seu estado, trata-lo como preexistência desse projeto o coloca num sentido tendencioso de destruição.

A força desse projeto está em entendê-lo como um trabalho de campo, que não pode ser realizado por funcionários comuns, e que guarda responsabilidades especiais aos arquitetos, na visita atenta às obras incendiadas e no registro dos fatos. Da mesma maneira, a preservação cotidiana é uma tarefa complexa: que exige esforço equivalente a reconstruir o objeto a cada vez que é analisado. Tais tarefas pressupõem um profundo conhecimento sobre o campo da arquitetura.

Por fim, o exercício da invenção ficcional cumpre em reconhecer maneiras de evitar esse cenário como real e aponta para a organização de um inventário documental que torna pública a coleta de informações sobre os incêndios que ocorreram. O procedimento de organização e catalogação dos casos é uma iniciativa propositiva diante de um cenário de colapso projetado que esperamos nunca ver realizado. As informações sobre os casos reais podem ser consultadas em arquivoincendio.wordpress.com. As notícias do incêndio no Museu Paulista estão fora do ar e esperamos não mais as ver publicadas em nenhum jornal.


Agradecemos ao orientador Mario Figueroa, aos coorientadores Camila Toledo e Luciano Margoto, à professora convidada Lizete Rubano, e aos consultores Amália Cristovão dos Santos, Eduardo Costa, Fabio Mosaner, Joana Barossi, Marcio Sattin, Marianna Boghosian Al Assal, Paulo Garcez Marins, Pedro Vieira, Pedro Beresin, Silvia Antibas, Silvio Oksman, Tuca Vieira e Vânia Carneiro de Carvalho.