TEMPO LIVRE – G18

Karina de Castro Rezende Rebello da Silva, Camila de Arruda Campos, Juliana Mattos Deeke, Helena Kozuchowicz, Helena Trancoso

ETAPA 1

ETAPA 2

ETAPA 3

tempo livre – Hoje não habitamos o tempo e sim a velocidade. Mergulhados em um excesso de tecnologia e de estímulos visuais, a percepção da passagem do tempo é suspensa. Nossa relação com os espaços do entorno é fragmentada e o contato com nossa sensibilidade é deixada de lado para acompanhar a frenética velocidade da vida urbana. O projeto tem como intenção gerar pausas que revelem a riqueza sensorial/emotiva/existencial do espaço em que será inserido e através da arquitetura capturar e evidenciar a passagem natural e livre do tempo.

 

percepção sensorial – “Minha percepção é [portanto] não só uma soma do sentido visual, tátil, e auditivo: eu percebo de forma total, com todo o meu ser; Eu compreendo uma estrutura única da coisa, uma forma única de ser, que fala a todos os meus sentidos ao mesmo tempo.”

 Maurice Merleau-Ponty

A partir de discussões teóricas sobre o tema proposto, voltadas á filosofia e a fenomenologia da arquitetura em paralelo com uma leitura do modo de vida urbano contemporâneo, o grupo chegou a uma proposta, após inúmeras visitas ao Campo Limpo, de atuar com intervenções arquitetônicas sensíveis e consistentes que criassem novas conexões urbanas e pausas no percurso que revelassem a potência espacial já presente no local escolhido, estimulando assim uma percepção sensorial da arquitetura que incorporasse nela a passagem livre do tempo e colocasse em evidencia a sua transformação, enriquecendo as experiências espaciais do dia-a-dia dos habitantes do Campo Limpo.

 

Durante a primeira visita ao Campo Limpo nos deparamos com situações que chamaram fortemente nossa atenção, sendo a principal delas a experiência espacial da favela mais próxima a estação de metrô Campo Limpo, onde subindo por uma viela muito estreita e densa, de forma repentina se chegava a um campo de futebol de grandes dimensões (40mx20m) completamente aberto no topo no morro. Marcando a potência que exerce em nossa percepção as dimensões, qualidades e características do espaço.

A riqueza nas texturas dos acabamentos das casas, a presença marcante de um caminho de água no cimento do piso, as marcantes entradas de luz que geravam diversas atmosferas no local e as inúmeras atividades que ocorriam no espaço público de circulação da viela capturaram nossa atenção e marcaram a nossa memória desse lugar.

Tentando explorar/descobrir mais possibilidades onde essas situações ocorressem,  voltamos para o mapa em busca de outras situações semelhantes a da viela-campo nas favelas do Campo Limpo, após elencar cada uma delas, foi feita uma nova visita onde encontramos o local ideal para a implantação do projeto, o Morro do Índio, onde todas as questões descritas à cima pareciam estar em sua máxima potência.

Entre a estação Campo Limpo e Vila das Belezas da linha lilás do metrô, a favela do Morro do Índio tem apenas 2 acessos. Na cota mais alta, o acesso é feito por uma entrada semiprivada na Rua Júlio Frank, e na cota mais baixa, próximo ao córrego na Avenida Carlos Caldeira Filho, o acesso só é possível através da rua sem saída Vila Caiz.

Com um desnível de mais de 30 metros de altura entre um acesso e outro, a circulação da favela é extremamente estreita, variando de 60 cm à 80 cm, e labiríntica, onde ao adentrar, se perde qualquer relação com o território ou com o entorno da cidade.

Encontramos também duas situações surpreendentes, a primeira se encontra 26 metros acima da cota do córrego, perto do acesso da rua Júlio Frank, onde após caminhar alguns metros de descida em um caminho mais amplo o pedestre se depara com uma situação de mirante, onde se tem uma vista completa e é possível identificar o território e a localização do morro. A segunda se encontra logo abaixo desse desnível de 12 metros onde está localizado o campinho de futebol dos moradores do morro.

A descida e acesso do campo à avenida principal, onde passa o metrô e o corredor de ônibus, é visível e necessária de acordo com os moradores, porém o grande desnível de 12 metros entre as 2 cotas inviabilizou até o momento sua implantação e para chegar aos 2 pontos é necessário voltar a entrar nas vielas da favela que vencem o desnível com escadas estreitas e irregulares.

A situação atual do local é de extremo abandono e precariedade, e a sua beleza, característica desse tipo de ocupação (favela), é oculta pela falta de sensibilidade em ler os ricos elementos espaciais e sensoriais já presentes no local e em ver o potencial do lugar de se tornar um espaço público de qualidade, fortalecendo as dinâmicas sociais da comunidade do morro e a identidade e relação dos moradores com o lugar em que vivem.

O projeto identifica 2 escalas como lugar para exploração de soluções e implantação do projeto:

  1. Escala Urbana: O forte eixo atualmente não existente entre: córrego/avenida – campinho – mirante – acesso a cota mais alta/bairro. Vendo esse local como potencial para novos espaços urbanos de qualidade.
  2. Escala da Viela: O projeto seria implantado ao longo do trajeto feito por vielas que levam aos pontos descritos acima, criando um percurso rico em sensações, levando em conta os habitantes desse local, o contexto e as características espaciais e materiais já existentes.

A intenção é semelhante a de lapidar um diamante bruto, para assim revelar sua verdadeira beleza e a com a arquitetura demonstrar como uma intervenção consistente, sensível e com base em uma reflexão sobre a própria essência da disciplina é capaz transformar e fortalecer a relação dos indivíduos com o espaço em que habitam.

Tendo como guia o exemplo de Heidegger do templo grego, onde ao inserir um elemento em um espaço/ território, esse elemento não revela só a si mesmo como também traz a luz o seu entorno, e a beleza da arquitetura é justamente essa riqueza de possibilidades dessas “fronteiras/limites” entre objeto-entorno, o projeto tem como foco explorar tais limites, e assim explorar/provocar através da experiência arquitetônica a percepção sensorial do espaço pelo indivíduo.

Para que o projeto adquirisse qualidade, profundidade e de fato alcançasse seus objetivos, foi necessária uma minuciosa leitura do espaço e sensibilidade do grupo para perceber e valorizar tais riquezas, dando assim espaço para o desenvolvimento de uma arquitetura lenta, onde os temas e partidos do projeto se evidenciam tanto na escolha do lugar, como na detalhada escolha dos materiais utilizados, chegando até o desenho do detalhe de encaixes e elementos marcantes do espaço.