TEMPO LIVRE – G28

Lígia Bacellar Zilbersztejn, Laura Pappalardo, Marian Rosa Van Bodegraven, Francy Woo Balint, Nina Oliveira Farkas

ETAPA 1

ETAPA 2

Paro, me sinto mais leve. aqui há sombra, crianças se refrescam na água da fonte. gosto de observar a gente de todo o tipo, um grupo conversa embaixo da sombra das árvores; um homem velho, com a bíblia nas mãos, prega a palavra de Deus insandecido, alguns olham e outros tantos o evitam, passam apressados. o cheiro do milho atravessa a praça, se espalha pela grama e alcança o papelão que cobre o casal adormecido.

acelero; a sombra das árvores aqui é substituída pela sombra dos prédios – eles me achatam. há gente andando por todos os lados, traçam caminhos emaranhando-se pelas calçadas e cruzamentos de avenidas e se espicham até o alto pelos elevadores.

furo paredes, atravesso escritórios: gente que começa o dia, abre o jornal, toma um café, corre, calça os sapatos, abre as persianas. gente, tanta gente.

já daqui vejo as suas linhas horizontais, acompanho-as como se quisesse tocá-las, mas na última de suas curvas me perco: o lado de lá nunca se mostra, é a sua nuca que ele não me deixa ver.

um respiro, clarão, ofuscamento. buzinas, freios, todos aceleram. o sino da igreja se junta ao movimento da massa, ouço meia badalada se tanto. o burburinho das mesas na calçada é substituído pelo atrito das rodinhas deslizando no concreto. na minha frente carros descansam.

mergulho no escuro e uma fila de automóveis me atravessa; subo, subo, subo: frigideira no fogo, músicas das mais diversas tocam, sincronizadas, uma melodia esquizofrênica. Pó nos armários, nos azuleijos, nas cadeiras de balanço, nos pacotes de bolacha esquecidos no fundo das prateleiras. Esquecida também a casa, as plantas é quem tomam conta; sobem pelas paredes até alcançar o teto, cobrem interruptores, tacos e porcelana.

um baque: muitos carros, gente que espera ilhada, buzina, motor, jovens que falam sem parar. no meio do caminho, outra ilha: de silêncio, de vazio. passo calado, não respiro. sinto o frio do mármore ao atravessá-lo. são vários, um atrás do outro, firmes em seu lugar: um mar de gente ainda ali em forma de pedra. o movimento é do balanço dos galhos das árvores.

atravesso uma parede: escureço. vejo brilho dos candelabros. escureço. fios de led, luz fria, luz quente. escureço. acendo e apago, acendo e apago.

estou quase alcançando o topo, me sinto sem fôlego mas continuo, cada vez mais devagar. autofalante que anuncia cinquenta por cento de desconto nos eletrodomésticos: microondas, geladeira, fogão. logo ao lado, gente calada mergulhada no escuro. mergulho também eu. ela olha, pela vigésima vez, aquela mesma cena. ele a olha de volta; salta da tela. perco-os de vista fugindo para a cidade. respiro, descanso. dentro de mim alguma coisa se mexe.

ETAPA 3

A partir da proposta de reflexão sobre um bairro – Campo Limpo – e um tema – tempo livre – surge uma questão: como, na cidade de São Paulo, vive-se o tempo livre?
O tempo livre é o tempo do nada a se fazer, da não obrigação, do lazer, apesar de ser o lazer, um fazer (temos, hoje, muita dificuldade de viver o ócio). Porém, como ter direito a esse tempo quando se vive em uma cidade cuja grande maioria de seus habitantes passa de três a oito horas diárias deslocando-se entre trabalho – casa?
Em São Paulo, o movimento pendular é fruto da lógica de funcionamento da cidade. Há, então, um tempo diário de deslocamento: um tempo livre é gerado por ele. Tal tempo, muitas vezes esquecido, considerado um tempo entre, esvaziado de acontecimento, é, talvez, o mais longo tempo livre. O tempo de não se fazer nada dos transportes, é, assim, um tempo livre determinado pelo tempo do deslocamento. Um tempo longo, em um espaço restrito.
Ao pensar os espaços no qual esse tempo se dá, entre os três tipos de transporte público mais utilizados – ônibus, metrô, e trem de superfície -, percebemos ser o metrô o único trecho no qual, durante o percurso, se perde a conexão com a cidade. Como um passe de mágica, entramos num lugar e saímos noutro, sem ter noção de por onde estamos passando: para viabilizar um menor tempo de deslocamento, o metrô apaga a cidade. O que perdemos de cidade ao viajarmos enterrados? O que veríamos se, ao percorrer a linha de percurso do metro, estivéssemos no nível da rua?
Propomos assim, neste trabalho, revelar a cidade sob a qual passamos quando dentro do metrô. Uma câmera passeia na cidade e mostra aos passageiros por onde passam, como uma espécie de corte urbano que segue o caminho do metrô. Tal corte, porém, não é uma passagem indiferente, como é encarado o percurso do transporte no dia a dia: uma paisagem observada por olhares já acostumados, que não descobrem mais, desinteressados. A leitura de imagens em corte feita pelo metrô traz a investigação do espaço sob o qual desliza.
Foi imaginado, então, um filme que busca a retomar a urbanidade da qual nos desconectamos quando estamos no metrô. Com a proposta de ser passado no metrô, simultaneamente ao tempo de viagem de seus passageiros, foi executado, entre as estações de metrô República e Paulista, um trecho demonstrativo de como seria tal conexão entre passageiro e cidade. O vídeo, de duração correspondente ao tempo de deslocamento entre as duas estações (3min10s), quando visto no metrô, reestabelece a presença da cidade no tempo livre do transporte.

apresentação

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