TEMPO LIVRE – G35

Luiz Eduardo Solano Godoy de Abreu, Laura Malavoglia Bellotti, Murillo Esthevez Martins de Lazari, Laura Duque Peters, Maria Fernanda Sader Basile

ETAPA 1

espaço percebido | tempos percebidos

ETAPA 03

 

Dado o tema Tempo Livre, nos deparamos com a dificuldade de conceitualizar e delimitar seu sentido. Podemos entender que todo o tempo é livre pois os sujeitos possuem liberdade de ocupa-lo segundo suas vontades. Simultaneamente podemos entender todo o tempo como condicionado, pois a condição de não liberdade provinda das relações sociais prescrevem as regras existenciais. Além de conformar essa difícil delimitação do significado de Tempo Livre, nos é impossível imaginar um espaço que o proponha. De fronte a esse nó górdio nossa pesquisa visa compreender as temporalidades entendendo que toda apreensão da realidade é contida com base no espaço-tempo, como num sistema de batalha naval.

A fim de compreender as relações espaço-temporais através de uma descrição generalizada utilizamos o conceito de três dimensões de práticas espaciais estabelecido por Henri Lefebvre: o “espaço vivido”o espaço da realidade, onde habitamos, o “espaço percebido” – o espaço da representação, onde percebemos e o “espaço imaginado”o espaço de projeção, onde imaginamos. Vale ressaltar, que essa divisão das práticas espaço-temporais compreende a necessária coexistência das três dimensões, de forma que não há como um espaço existir sem que os outros mutuamente existam. Tendo essa compreensão, este trabalho visa aprofundar-se sob o “espaço percebido” e por consequência, aprofunda-se sob a dimensão espaço-temporal em sua totalidade, abrangendo o espaço “vivido” e o “imaginado”.

O “espaço percebido” além de seu potencial meramente representativo, possui uma força produtiva material, ou seja, a representação é também uma forma de apreensão da realidade submetida a ressignificações. Barnard Secchi apresenta o campo da representação enfatizando duas extremidades complementares, a “retórica da realidade”- que parti de uma contínua e apurada dissecação do mundo e a “retórica da precisão irrefutável” – que parti da abstração daquilo que literalmente não pode ser visto senão como representação de um modelo hipotético e explicativo.

Como explica o autor, a “retórica da realidade” em sua total predominância limita-se à observação, enquanto a “retórica da precisão irrefutável”, também em sua total predominância, limita-se à conceituação. Mesmo quando uma representação compõe-se das duas retóricas simultaneamente, ela ainda assim limita-se em si mesma, compreendendo sempre apenas um aspecto da realidade. Em Condição Pós Moderna, David Harvey discorre sobre a abstração que exercemos sob essa dimensão enquadrando-a em minutos, horas, dias, metros, área, distancia, etc, revelando-a para além da escala única e objetiva que estamos acostumados, de maneira a evidenciar sua subjetividade e suas incontáveis variantes.

Neste trabalho, abordamos a representação utilizando de instrumentos da “retórica da realidade” e da “retórica da precisão irrefutável”, com o objetivo de abranger a dimenção espaço-temporal sem congelá-la. Mas, as maneiras com as quais podemos representar e perceber a dimensão espaço-temporal, são tão variadas quanto as maneiras de vivencia-la e dessa forma, a realidade passa a ser compreendida a partir da relação sujeito/objeto, abrangendo além da temporalidade e da espacialidade, a percepção individual. Essa triade é nomeada ao decorrer do trabalho como “visão de mundo individual” e seus componentes estão em constante dialogo, se interferindo e alterando mutuamente, dentro do próprio individuo e conforme ele entra em contato com outras individualidades, ou seja, o encontro entre dois personagens é capaz de alterar a “visão de mundo individual” de ambos. Para que aja translação social, as rotinas cotidianas dos sujeitos tem de ser interseccionadas.

Dentro do nosso terreno de estudo, o bairro Campo Limpo, identificamos o Shopping Campo Limpo como um grande polo de intersecção cotidiana entre diversos indivíduos, onde múltiplas atividades ocorrem simultaneamente propondo grandes contrastes entre variadas espacialidades, temporalidades e percepções. A dimensão simbólica do Shopping amplia-se significativamente pela ausência de equipamentos no bairro Campo Limpo, o que o fortalece como um polo central.

O “espaço percebido”, através da comunicação proposta pela representação, adquire força de ressignificar a realidade, alterando o “espaço vivido”, através da transformação da “visão de mundo individual”. Assim, para melhor entendermos a estrutura de um Shopping, analisamos as auto-representações de diversos, a fim de ressignificar suas realidades, e nos deparamos com padrões que se repetem em suas configurações. Em todos os shoppings podemos ressaltar uma similaridade configurativa, que reproduz a cidade com uma simulação de infraestrutura urbana e propriedade privada. Assim como os lotes, as lojas funcionam como propriedades que podem ser alugadas e vendidas e que se encontram permeadas por uma infraestrutura, como ruas de circulação, iluminação, saneamento, sistema de coleta de lixo, etc. Os Shoppings, como característica geral, são voltados para o interior, ensimesmados, com ruas e estruturas internas que se concluem em si mesma sem dispor de conexões com possíveis entornos.

Mas o Shopping Campo Limpo, em particular, devido à sua implantação, possui uma especial conexão com o entorno. Pela topografia delimitada, ao abrir passagens para as ruas que o margeiam, ele estabelece uma conexão direta entre as diferentes cotas nas quais essas ruas se encontram, e adquiri para além de seu uso como espaço comercial, uso como espaço de travessia. Essa função adquirida ganha mais força pela grandeza do quarteirão, que possui uma dificuldade de ser atravessado e pela conexão estabelecida com o metro, e ainda se fortalece pelo sem potencial atrativo.

Quer como espaço comercial, quer como espaço de travessia, o Shopping possui um potencial atrativo, que interfere na percepção dos indivíduos e altera a “visão de mundo individual” de forma variada e subjetiva, de acordo com a personalidade de cada individuo. Na pesquisa por identificar espacialmente quais fatores intensificam o potencial atrativo de determinado lugar, identificamos três tratamentos espaciais, que chamaremos de “Expositivos”, “Neutros” e “Desconhecidos”.

Os expositivos são compostos dos espaços de consumo, onde o individuo em seu percurso ou permanência atinge visualmente vários planos ao mesmo tempo. Com vitrines, esses espaços são tratados para direcionar o olhar do individuo e ao mesmo tempo torna-lo difuso entre os produtos. Os neutros são espaços intermediários que fornecem serviços aos consumidores. Sem potencial atrativo, diferentemente das vitrines, seu tratamento não possui mediações visuais. Os desconhecidos, não pertencem ao “espaço vivido”, e portanto não conformam o imaginário do shopping dos consumidores e não possuem nenhum tratamento. Por mais que nem todos esses tratamentos espaciais pertençam ao “espaço vivido”, todos tem potencial para pertencer ao “percebido” e ao “imaginado”, e assim, ressignificar a “visão de mundo individual” e alterar o “espaço vivido”.

Assim, sugerimos um “espaço imaginado” para o Shopping Campo Limpo, composto de três cenários que não se configuram como três etapas de um único projeto que se somam materialmente, mas como ideias paralelas que convergem em suas intensões e propõe maior interação entre o shopping e a cidade.

O Shopping como espaço de travessia o configura como um equipamento vinculado ao sistema urbano, mas sob a exige dos seus mecanismos internos. Esses cenários buscam livrar os usos urbanos do shopping dessa exige em escalas diferentes, o primeiro, na escala do lote trata das lojas, o segundo da escala do quarteirão trata do shopping e o terceiro na escala urbana trata da conexão com o entorno.

Esses cenários além de desassociar a infraestrutura urbana fornecida pelo shopping dos mecanismos de organização internos propõe uma fusão entre shopping e cidade na qual o shopping internaliza a cidade ao mesmo tempo que a cidade internaliza o Shopping. Ou seja, da mesma maneira que a infraestrutura urbana invade o interior do Shopping, o Shopping invade a cidade expandindo a área de intersecção entre as “visões de mundo individuais”, esse espaço de confluência e de rica variação de espacialidades, temporalidades e percepções se expande para além dos limites do shopping propondo translação social e diluindo a centralidade do Shopping como polo pelas ruas do Campo Limpo.

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