G20 | O feminino em São Paulo

Por que as cidades não são seguras para as mulheres?
Historicamente, o espaço urbano reflete as divisões de papéis tradicionais entre os gêneros, que reservam à mulher o âmbito doméstico e ao homem os espaços públicos. Como consequência, nossas cidades são planejadas e construídas por homens e para os homens e reproduzem, assim, as relações de poder e dominação entre gêneros.

Etapa final

Ao nos debruçarmos sobre a cidade de São Paulo, definimos que o recorte seria em determinadas áreas da cidade que sofressem dos mesmos problemas (guardadas as devidas proporções) que Viena e a Catalunha, nos bairros El Congost (Granollers), L’Erm (Manlleu) e Collblanc/Torrassa (l’Hospitalet de l’Obregat), nos quais, os pricipais temas tratados eram a criação de coletivos, conversas e workshops em grupos de mulheres, campanhas de conscientização sobre o tema, melhora da mobilidade, acessibilidade e permeabilidade, eliminação de barreiras visuais, requalificação da iluminação urbana,

Nas diretrizes que propusemos para a cidade, viram-se englobados os seguintes temas:

01. fachada ativa: propõe-se que devem existir usos variados nas fachadas ao longo do dia e da noite, possibilitando que o transeunte veja e seja visto.

02. creches, playgrounds e esportes: criação de uma rede de creches, praças e parques com quadras poliesportivas que fujam dos equipamentos convencionais, com mobiliários adequados que permitam a prática de brincadeiras de grupos menores e de socialização em geral.

03. vida noturna e iluminação: a precariedade da iluminação está intimamente relacionada a casos de assaltos, sequestros, estupros e homícidios, causando uma permanente sensação de insegurança.

04. acessibilidade: simples mudanças no desenho de

equipamentos públicos (piso tátil, corrimão, etc).

05. banheiros públicos: promover a inclusão e igualdade social e a coexistência de indivíduos diversos, priorizando a salubridade da população.

06. comércio e uso misto: intercalar usos ao longo da cidade, mesclando usos diurnos e noturnos.

07. transporte e fluxos: combate a superlotação por meio do aumento das linhas de transporte, da variedade e conexão entre os modais e do aumento da oferta.

08. assistência à mulher: criação de equipamentos que forneçam informação, apoio físico e emocional às mulheres cis e trans, articulados a delegacias da mulher e centros de referência lgbtqia+.

Após as etapas de questionamento (01), estudo de caso (02) e aproximação (03), percebeu-se que seria mais interessante do que realizar um projeto que se aproximasse de uma área específica da cidade, fazer uma junção das informações coletadas ao longo do processo e formatá-los em dois produtos distintos mas complementares: uma cartilha e um livro de processo.

Uma cartilha foi pensada como um veiculador das informações do trabalho de forma mais rápida e voltado para os estudantes e praticantes de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo mas que, ao mesmo tempo, por ter sido feito com uma linguagem acessível, pudesse ser compreendido por qualquer cidadão interessado pelo tema. A cartilha é composta de um “desenho-modelo” do que seria a cidade se contempladas as intervenções propostas na etapa de aproximação (03), diagramas explicativos das etapas de implementação destas e um texto-manifesto a respeito do tema.

“uma cartilha em busca de uma cidade mais justa [ou] como projetar a partir de uma perspectiva de gênero”

“POR UM MUNDO ONDE SEJAMOS SOCIALMENTE IGUAIS, HUMANAMENTE DIFERENTES E TOTALMENTE LIVRES” Rosa Luxemburgo

“o espaço urbano reflete as divisões de papéis tradicionais entre os gêneros, que reservam à mulher o âmbito doméstico e ao homem os espaços públicos. Como consequência, nossas cidades são planejadas e construí- das por homens e para os homens e reproduzem, assim, as relações de poder e dominação entre gêneros, em um jogo onde a presença do feminino não é bem-vinda.”

“estamos em são paulo queremos repensar essa cidade em constante transformação entender essa cidade desde o centro até a periferia lançar um olhar mais cuidadoso para todxs aquelxs que se utilizam dessa cidade a partir de uma perspectiva da vivência feminina em toda a sua pluralidade para criar espaços que possam ser usufruídos por todxs somos jovens estudantes de arquitetura que questionamos a forma como as cidades se consolidaram até então estamos cansados dessa falsa ideia de democracia das grandes cidades. uma cidade pensada unicamente para o homem branco-cis-hétero não atende a todas as demandas de uma sociedade tão complexa queremos entender as pluralidades ao invés de projetar para uma massa generalizada”

O livro, por outro lado, se mostrou como uma ferramenta importante para o trabalho, devido a capacidade de aglutinar as informações coletadas e colocá-las de forma coesa para que se entendesse os percursos pelos quais o trabalho passou. Ao mesmo tempo, formatar todo o conteúdo no formato de um livro é relevante devido a inexistência de uma discussão mais ampla e acessível do tema em questão, bem como sua veiculação e estudo dentro do ambiente acadêmico.

ETAPA 03

Nessa etapa, o grupo se propôs a desenvolver uma cartilha voltada para estudantes de arquitetura, com o fim de questionar a forma como fazemos cidade.

SÃO PAULO E O FEMININO
uma cartilha em busca de uma cidades mais justa [ou] como projetar a partir de uma perspectiva de gênero

“Assédios, estupros e abusos são vividos pelas mulheres nas cidades como se transitassem em espaços que não são seus. Isso é reforçado pelo descuido com serviços comuns, como transporte e iluminação. Em vez de a cidade se adequar às necessidades de suas usuárias, são elas que mudam hábitos, roupas, percursos e horários”

Ana Paula Ferreira

ESTAMXS EM SÃO PAULO. QUEREMXS DESENVOLVER NOVAS MANEIRAS DE PENSAR ESSA CIDADE EM CONSTANTE TRANSFORMAÇÃO. ENTENDER ESSA CIDADE EM SUA TOTALIDADE, DESDE O CENTRO ATÉ A PERIFERIA. LANÇAR UM OLHAR MAIS CUIDADOSO PARA TODXS AQUELXS QUE SE UTILIZAM DESSA CIDADE. PARTIR DE UMA PERSPECTIVA DA VIVÊNCIA FEMININA – EM TODA A SUA PLURALIDADE – PARA CRIAR ESPAÇOS QUE POSSAM SER USUFRUÍDOS POR TODXS.

SOMXS JOVENS ESTUDANTES DE ARQUITETURA QUE QUESTIONAMXS A FORMA COMO AS CIDADES SE CONSOLIDARAM ATÉ ENTÃO. ESTAMXS CANSADXS DESSA FALSA IDEIA DE DEMOCRACIA DAS GRANDES CIDADES. UMA CIDADE PENSADA UNICAMENTE PARA O HOMEM-HÉTERO-BRANCO-CIS NÃO ATENDE A TODAS AS DEMANDAS DE UMA SOCIEDADE TÃO COMPLEXA. QUEREMXS ENTENDER AS PLURALIDADES AO INVÉS DE PROJETAR PARA UMA MASSA GENERALIZADA.

POR QUE SÃO PAULO? DESIGUALDADE SOCIAL. CALÇADAS ESBURACADAS. RACISMO. MORADORES DE RUA. FOME. MEDO.MUROS. INSEGURANÇA. ALAGAMENTOS. CARÊNCIA DE SERVIÇOS PÚBLICOS. PROSTITUIÇÃO. SEDENTARISMO. TRÂNSITO. PEDOFILIA. ESTUPRO. ESTACIONAMENTOS. COMO NÓS, FUTURXS ARQUITETXS, PODEMXS CONTRIBUIR PARA MUDAR ESSA REALIDADE?

POR QUE AS CIDADES NÃO SÃO SEGURAS PARA AS MULHERES?

O espaço urbano é apenas um reflexo dos papéis que foram impostos historicamente para a mulher e para o homem, a casa e os espaços públicos, respectivamente. Essa dominação entre gêneros se reflete no desenho das nossas cidades, onde as regras são ditadas pelos homens (cis – hétero – branco) em um jogo onde a presença do feminino não é bem-vinda.

COMO PODEMXS INTERVIR NO CONTEXTO DE UMA CIDADE JÁ CONSOLIDADA SOBRE UMA PERSPECTIVA MASCULINA?

Para intervir em São Paulo, é preciso compreender as dinâmicas internas já existentes e questionar sua viabilidade. Entender as pessoas que realmente vivem e utilizam o espaço e como essa realidade deveria ser melhorada. Assim elencamos uma série de medidas pontuais que podem ser aplicadas na cidade existente, sem ter de fazer tábula rasa dela.
AUMENTAR E MELHORAR A ILUMINAÇÃO A FIM DE TORNAR OS ESPAÇOS MAIS SEGUROS

AMPLIAR A REDE DE CRECHES PARA DINAMIZAR A ROTINA DOS TUTORXS

REPENSAR O TRANSPORTE PÚBLICO PARA QUE ELE DEIXE DE SER UM ESPAÇO OPRESSIVO

CRIAR FACHADAS ATIVAS EM TODA A EXTENSÃO DOS PRÉDIOS PARA QUE OS ESPAÇOS URBANOS POSSAM SER “VIGIADOS” 24H

REPENSAR OS CAMINHOS DA CIDADE, CONSIDERANDO TANTO OS FLUXOS MAIS GERAIS, COMO OS INTERMEDIÁRIOS

REPENSAR OS ESPAÇOS DESTINADOS A ESPORTES, AMPLIANDO SUAS POSSIBILIDADES DE USOS

UNIR ÁREAS DE COMÉRCIO COM ÁREAS DE HABITAÇÃO PARA ANIMAR A CIDADE E EVITAR LUGARES RESIDUAIS

CRIAR EQUIPAMENTOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA MULHERES, PRINCIPALMENTE EM ÁREAS PERIFÉRICAS

CRIAR ESPAÇOS PÚBLICOS COM USOS DIVERSIFICADOS

CRIAR ESPAÇOS DE AMPLA ACESSIBILIDADE

 

POR QUE LUGARES ESCUROS SÃO TÃO AMEDRONTADORES E PERIGOSOS?

Um dos grandes desafios para as pessoas utilizarem a cidade é a insegurança. Dessa forma, passar por determinados locais muitas vezes pode ser uma experiência muito desconfortável, principalmente quando eles estão escuros, sem saber o que está a sua volta.

São Paulo tem diversos espaços residuais, que a noite perdem ainda mais sua força pela escuridão total.

Para o gênero feminino, esse medo se amplia considerando todos os tipos de violência aos quais estão sujeitxs – assaltos, sequestros, estupros, feminicídios, entre outras.

Sendo assim, a medida em que os lugares ganham uma iluminação, isso faz com que as pessoas possam enxergam e entender o que está acontecendo à sua volta.

COMO AUMENTAR O NÚMERO DE CRECHES PODE AJUDAR NA ROTINA, PRINCIPALMENTE, DAS MÃES?

Na lógica social em que vivemos, as mulheres são muito mais cobradas das funções maternas do que os homens do seu papel de pai. Com isso, muitas têm que abdicar de sua carreira profissional pela falta de auxílio para cuidar dos filhos.

Além disso, quando conseguem colocar as crianças em alguma creche, elas tem de desviar o seu percurso para se adaptar à localização da creche.

Tais dificuldades já se encontram nas áreas centrais, mas ocorrem de forma muito mais ampla nas periferias.

Assim, ampliar o número de creches, bem posicioná-las em áreas estratégicas para favorecer o percurso das mães, é uma das formas de projetar pensando em como proporcionar um percurso mais bem continuo para elas e permitir com que elas possam escolher se querem continuar trabalhando.

POR QUE OS TRANSPORTES PÚBLICOS SÃO OPRESSIVOS PARA AS MULHERES?

Os ônibus, metros, trens, entre outros modais de transporte público, foram projetados de forma a conseguir concentrar o maior número de pessoas por unidade para aumentar o lucro das empresas que os financiam. Essa superconcentração acaba favorecendo agressores sexuais.

Muitas mulheres não se sentem seguras ao utilizar os transportes públicos, já que assédios se tornam cada vez mais constantes. Assédios tantos físicos, quanto verbais.

Repensar o desenho desses transportes, bem como ter um maior controle sobre a quantidade de passageiros, tornaria essa locomoção mais convidativa para as mulheres.

COMO A PARTIR DO ESPAÇO PRIVADO É POSSÍVEL CRIAR MAIS SEGURANÇA NO ESPAÇO PÚBLICO?

Muitos dos espaços residuais das cidades são aqueles em que os edifícios dão suas costas, ou seja, onde estão posicionadas as áreas de serviços (lavanderia, banheiro, elevadores, por exemplo). Assim, a forma como o espaço privado das edificações se consolida acaba interferindo na vivência que se tem do espaço público, podendo torna-lo inóspito pela falta de controle sobre ele.

Assim, essa hierarquização de fachadas torna-se problemática. Tentar alternar as fachadas sociais de forma a criar várias “frentes” pode ser um desafio por conta de questões mais técnicas (insolação, ventilação, por exemplo), porém um desafio que nós, estudantes da arquitetura, por meio dos nosso conhecimentos e estudos, temos capacidade de cumprir.

Assim, a partir do momento em que essas fachadas conseguem se alternar, o espaço público passa a ser vigiado pelas pessoas que estão dentro das edificações, uma espécie de “social eyes”, fazendo com que mais ruas se tornem seguras.

POR QUE DIVERSIFICAR OS FLUXOS DA CIDADE INFLUÊNCIA DIRETAMENTE A VIVÊNCIA DAS MULHERES?

Retomando mais uma vez a lógica social imposta para cada gênero, ainda fica sobre responsabilidade da mulher, de forma geral, cumprir as demandas do lar e da família. Sendo assim, seu trajeto não se resume a lógica CASA-TRABALHO-CASA, considerando que ela precisa aliar a sua rotina diversas “paradas”, como supermercado e farmácia.

Sendo assim, considerando que a lógica dos transportes públicos respeita apenas um fluxo mais geral, ou seja, o fluxo BAIRRO-CENTRO-BAIRRO, esse trajeto com várias paradas não é nem um pouco dinâmico e torna-se muito cansativo.

Sendo assim, uma diversificação dos fluxos seria uma forma de auxiliar essa rotina, pensando que nem todos tem o privilégio de seguir um único trajeto.

COMO CRIAR PRAÇAS E PARQUES, VOLTADOS AO ESPORTE, QUE SEJAM MAIS PLURAIS?

Os poucos lugares públicos destinados ao esporte na cidade de São Paulo ainda seguem um desenho muito burocrático: uma quadra de futebol, gradeada de todos os lados, com apenas uma única saída. Será que esse desenho é convidativo a todos os cidadãos?

Ao olharmos para o público que utiliza essas quadras, percebemos que ele é formado, de forma geral, por adolescentes do sexo masculino. Sendo assim, a partir do momento que eles “dominam” aquele espaço, muitas pessoas não se sentem confortáveis para compartilhar daquele local.

Tal desconforto é ainda maior quando uma menina quer utilizar aquele espaço. Isso porque, muitas vezes, esse espaço além de ser opressor para ela, acaba não sendo o ideal para ela realizar os tipos atividades que ela deseja.

É preciso pensar além dos esportes tradicionais, que no caso de São Paulo se resume basicamente ao futebol.

Muitas vezes, meninas costumam gostar de atividades em grupos menores, como jogos verbais e jogos com corda. Assim, quadras gradeadas não costumam cumprir as necessidades desse grupo.

Com isso, pensar essas praças para atender variados esportes, bem como playgrounds e espaços de estar mais diversificados e com mobiliários adequados, faz com que essas praças sejam mais convidativas para os diversos públicos.

COMO MESCLAR COMÉRCIO COM HABITAÇÃO TRAZ MAIS SEGURANÇA PARA A RUA?

A cidade de São Paulo apresenta largas extensões compostas apenas por residências muradas, tornando esses espaços muito vazios e escuros, sendo residuais dessas habitações. À noite, esses locais acabam ficando muito perigoso, fazendo com que o percurso de retorno ao lar aos pedestres seja amedrontador.

Muitos conjuntos residenciais acabam utilizando segurança particular como alternativa para viabilizar esses locais. Será que essa é a melhor solução?

Acreditamos que ao buscar unir comércios com as habitações, essas zonas não ficarão tão vazias e, as pessoas que estiverem utilizando esses comércios, trarão mais vida para esses locais e, consequentemente, mais segurança.

QUAL A IMPORTÂNCIA DE EQUIPAMENTOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AS MULHERES?

As mulheres são as grandes vítimas da falta de acesso a políticas públicas adequadas. Criar espaços que sejam exclusivos para elas, ao longo de toda cidade, é apenas uma forma de fazer justiça social.

Temos consciência de que, apesar da arquitetura ter um papel essencial para auxiliar na vida das mulheres, ela não é a única fronteira que temos de enfrentar. Logo, projetar esses espaços de assistência é uma forma de conscientizar essas mulheres de seus direitos, bem como um lugar onde elas se sintam seguras.

Para isso, não basta projetar em pontos esporádicos, mas é necessária uma rede de apoio nas áreas centrais mas, principalmente, nas áreas periféricas.

QUAL A IMPORTÂNCIA DE DETERMINAR DIVERSOS USOS PARA UM ESPAÇO?

A cidade de São Paulo é marcada por vários espaços de estar, mas sem mobiliário adequado e sem usos determinados. Isso acaba inviabilizando esses espaços e negando a sua função original, ou seja, ao invés de tornar esses locais superpovoados e animar a cidade, acabam virando justamente residuais.

Assim, para tornar esses locais viáveis, é necessário implantar usos diversificados para que atenda diversos públicos e que esses espaços tenham uma dinâmica própria durante 24 horas.

SERÁ QUE A ACESSIBILIDADE REALMENTE É IMPORTANTE?

Repensar os caminhos e percursos da cidade de forma a atender às pessoas com necessidades especiais é essencial para cumprir o direito de ir e vir dos cidadãxs. É importante ressaltar que estão elencados nesse grupo pessoas como gestantes, crianças, idosos, pessoas com deficiência física, pessoas com deficiência visual, pessoas com crianças de colo, entre outros.

Assim, estabelecer um percurso viável para os pedestres, bem como viabilizar os modais de transporte, é uma maneira de integrar esses cidadãos nas dinâmicas urbanas e ceder à eles o direito que já é garantido por lei

AFINAL, UMA CIDADE QUE ATENDE ÀS NECESSIDADES DE UMA MULHER TRANS, NEGRA, PERIFÉRICA, CADEIRANTE, COM FILHOS PEQUENOS E QUE TEM DE FAZER DUPLA JORNADA DE TRABALHO, NÃO É BOA PRA QUEM?

Cartilha_SP_e_o_Feminino

ETAPA 02

Entendemos que não só as mulheres cis sentem-se vulneráveis no espaço público, mas também mulheres trans, homossexuais e toda e qualquer outra classificação que possa ser abarcada ou identificada em algum grau com o gênero feminino, sendo a relação deste com o espaço público nosso objeto de estudo.

Estando nós, arquitetas(os) e urbanistas, diretamente ligadas(os) ao planejamento e construção da cidade como a conhecemos – desigual e, no mínimo, hostil ao feminino -, nos é obrigatório repensar a forma como estamos fazendo nosso trabalho e para quem ele está direcionado.

no ‘feminino’ engloba-se uma série de outros grupos de pessoas que não são contempladas pelo planejamento por e para o homem universal

Assim, pensar a cidade a partir de uma perspectiva de gênero é necessário para, de fato, se projetar uma cidade mais justa e igual, dando suporte às diferenças. É entender que, ao atender as demandas de grupos oprimidos, atenderemos as necessidades da população como um todo. Todo mundo ganha.

diagrama: diferenças nos deslocamentos diários entre gêneros

Tendo isso em vista, o grupo se propõe a investigar experiências de planejamento urbano a partir da perspectiva de gênero, se aproximando da experiência em Viena iniciada nos anos 90, com a intenção de entender as ferramentas ali usadas e aplicá-las, com as devidas adaptações ao contexto, em nosso modo de fazer cidade.

A experiência de Viena em três projetos:

1992 | “Oficina de mulheres”
1993 | Concurso: “Como seria um distrito planejado a partir da perspectiva das mulheres?”
Resultado: conceito de projeto Frauen Werk Stadt.
(‘mulheres da cidade e do trabalho’)

1997 |  Frauen Werk Stadt I projeto de 360 habitações para atender cerca de 1000 pessoas.­ Para atender as demandas relacionadas as questões de gênero, o projeto parte de algumas perspectivas, como: variedade da tipologia das unidades, sensibilidade nos desenhos dos espaços abertos, conexão das entradas e do movimento das pessoas, criação de um eixo de atividades que favoreça o encontro, inserção de creches no caminho entre casa-transporte-trabalho, criação de fachadas ativas no período diurno e noturno,  desenho das plantas dos apartamentos tratando a cozinha como elemento central e com tipologias ‘ des-hierarquizadas’ e flexíveis.

2004 | Frauen Werk Stadt IIprojeto de 144 apartamentos para atender 432 pessoas. Por não ficar em uma região tão consolidada quanto o primeiro, trazer o transporte público para perto do conjunto torna-se uma questão de grande importância. Quanto aos espaços públicos, eles foram pensados para atender uma diversidade maior de pessoas (idosos, crianças e adolescentes) criando um uso contínuo entre os espaços. Tais espaços se formam a partir da permeabilidade no miolo da quadra, criando espaços mais reservados que no FWS I. Em relação às habitações, as cozinhas estão voltadas para o miolo de quadra, para que os pais possam ter um controle maior sobre os filhos e criando uma sensação maior de comunidade.

2009 | Frauen Werk Stadt III44 apartamentos (22 deles destinados as mulheres da associação), para 132 pessoas. Apresenta uma sensação de comunidade maior que FWS II, por conta da participação da associação de mulheres durante todo processo de consolidação do coletivo [ro*sa].

Além dos conjuntos habitacionais, o desenho dos parques e praças da cidade também foram questionados. Antes do planejamento a partir da perspectiva de gênero, grande parte deles abrigavam apenas esportes com os quais os meninos mais se identificavam, diminuindo a quantidade de meninas acima de 12 anos nestes. Os espaços também eram muito grandes e generalizados, o que os tornavam pouco convidativos. Após a difusão dessa prática, passou-se a diversificar tanto as atividades destes parques, como também os espaços, criando setores mais bem definidos e menores, o que aumentou o uso e, portanto, a segurança das usuárias.

A partir dessa primeira experiência de Viena, a ONU Habitat inicia o programa “Cidades mais Seguras”, que tem como principal objetivo fortalecer autoridades locais e partes interessadas para auxiliar e oferecer segurança urbana para grupos vulneráveis em países em desenvolvimento. Em 1996, foram cinco planos pilotos em Quito, Nova Delhi, Cairo, Port Moresby e Kigali, nos quais procurou-se, entre outras ações, melhorar zonas de terminais, escolas e mercados, empoderar mulheres sobre direitos sociais e humanos e integrar a perspectiva de gênero na política e plano de desenvolvimento urbano.

Agora nos fica a pergunta: como é possível projetar a partir da perspectiva de gênero em São Paulo?

ETAPA 01

Para entendermos a cidade contemporânea em toda complexidade do seu caos é necessário compreender o contexto em que boa parte dos projetos arquitetônicos e urbanísticos foram formulados, tanto na amplitude teórica quanto na realização prática.

Atualmente, vivemos em um conflito entre a maneira com a qual a sociedade está se consolidando e o espaço em que ela está inserida. Essa divergência pode ser melhor interpretada ao entender as mudanças que ocorreram da passagem do século XX ao XXI, ou seja, da sociedade moderna para a sociedade contemporânea.

A sociedade moderna é marcada por um processo de regularização a partir de uma série de normas e diretrizes. Assim, a ciência e o Estado são as grandes referências que “ditavam as regras” de como a massa deveria agir. Criou-se uma formulação de que o homem moderno seria aquele dotado de razão, inserido na lógica do sistema de produção industrial e, dessa forma, adaptado à sociedade existente. Não haveriam variações dessa fórmula.

Os projetos da cidade moderna seguiram essa concepção do homem universal. Tais projetos, principalmente os que trabalham a questão do espaço público e da relação entre o público e o privado, invocaram um desejo por fazer deste espaço aquele que abriga este homem universal e, muitas vezes, desconsideraram as dinâmicas naturais e diferenças socioculturais do próprio espaço urbano.

A função do arquiteto muitas vezes se perde ao passar do campo das ideias para a prática. Entra-se na dialética da utopia e da distopia e, assim como afirma Bauman na obra “Modernidade Líquida”: “Quanto mais os valores preservados no pensamento forem protegidos da poluição, menos significativos serão para a vida daqueles a quem deve servir. Quanto maiores seus efeitos nessa vida, menos os efeitos nessa vida reformada fará lembrar os valores que induziram e inspiraram a reforma.”

Assim, de nada adianta toda a beleza teórica se esses ideais não se aplicam na prática. Tal modelo de cidade não abrange todo a pluralidade que a sociedade contemporânea trouxe consigo. Essa é marcada justamente por uma maior fluidez quando comparada à anterior. A “racionalidade” transforma-se em “racionalidades”, a obediência em libertação, a massa em individualidade.

le dance,
tammam azzam

Assim, para pensar esse “novo modelo de cidade” que tem de conviver com a cidade já existente, é necessário lançar um olhar e criar um cenário que realmente acolha todos os seus moradores. Algo que difere muito dos anseios modernos de padronização dos cidadãos, que saiba respeitar sua pluralidade e entender as necessidades.

Para isso, acreditamos que um bom caminho de análise é buscar compreender a maneira como a questão de gênero está inserida no viver da cidade. Boa parte das problemáticas que se identificam na cidade contemporânea estão justamente associadas a esse olhar lançado quase que exclusivamente ao homem, deixando de lado o gênero feminino, considerando que este vai muito além do “universo das mulheres”. É necessário englobar esse gênero em toda a sua pluralidade.

tahitian women on the beach,
tammam azzam

Sendo assim, os projetos que antes miravam nas necessidades apenas daquele homem universal, o único ao qual o direito à cidade deveria abranger, tornam-se insuficientes no que diz respeito a pluralidade contemporânea.

A comparação entre o dia e a noite ajuda a ilustrar como o pensar a partir do gênero feminino ajuda a fazer uma cidade mais democrática. A partir do momento em que tentamos solucionar as problemáticas do período noturno na cidade, consequentemente soluciona-se as questões do período diurno da cidade.  Ao se cria equipamentos que permitem uma dinâmica noturna (iluminação e segurança, por exemplo), esses equipamentos serão suficientes para fomentar uma cidade segura durante 24 horas.

 

Tomando como base essas motivações, o grupo pretende abordar a questão do “fazer” o espaço público “pensando” sob a lógica do gênero feminino visando entender e consolidar o espaço urbano de uma forma que seja realmente democrática.