G36_Tapume

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“Para os de fora, o tapume provoca um efeito de caixa preta. Lá dentro, operações misteriosas encaminham os meios de produção na direção do produto final. Não vemos essas operações. O tapume as oculta apesar de sua função técnica – proteger o exterior do que pode ocorrer no interior e o interior das invasões do exterior – não implicar a barragem da visão. Ele impede, portanto, a observação da produção sem que haja nenhuma razão objetiva para fazê-lo. Invisível, pouco a pouco, o trabalhador coletivo, sempre numeroso na construção, da forma e consistência ao “jogo sábio dos volumes sob a luz” e desaparece no fim do processo. Poderíamos quase destacar um principio que rege a retirada dos tapumes : ela ocorre quando, recheadas de muita mais-valia, as edificações não deixam mais ver que são o produto da mão do homem. Ou seja, a edificação somente abandona essa provisória pele encobridora quando adere definitivamente à mascara do desenho denegador, quando o tempo de sua gestação é imobilizado pela simultaneidade no jogo dos volumes. Sob a máscara passageira, não surge a verdade – mas outra máscara petrificada. E o que foi tempo vivo de produção (oculto) torna-se valor por um lado, por outro, um fetiche.”

Sérgio Ferro, revista Móbile, junho de 2014.

Fotografia: Marina Schiesari.

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O grupo teve como partido reflexões a respeito dos canteiros de obras e sua relação com a cidade. Dessa maneira, a etapa construtiva, antecedente da materialidade final do projeto, é entendida como fundamental para o conceito de processo. Para isso, nos aprofundamos nos escritos do arquiteto Sérgio Ferro e da arquiteta Lina Bo Bardi, os quais se esforçam, mesmo que de diferentes formas, para romper as barreiras entre o projeto e canteiro de obra. Assim, contribuindo para uma produção arquitetônica menos hierárquica e mais experimental, defendendo práticas como mutirão autogerido ou presença física do escritório de arquitetura na obra.

Dessa forma, nos concentramos em entender as principais dinâmicas do canteiro de obras que, quando sintetizadas, refletem na relação linguagem-obra e corpo-obra. Na primeira, investigamos as possíveis linguagens que podem ser transmitidas/desenvolvidas no canteiro, principalmente, no processo de materialização projeto-obra. Enquanto na segunda, investigamos a pluralidade de relações entre as pessoas que participam cotidianamente da obra, sendo elas as que projetam, as que constroem, as que virão a usufruir daquela espacialidade, ou mesmo as que moram/transitam no entorno da obra e também acabam participando dela.

Por meio de uma reflexão pautada na dinâmica não tradicional e mais fluida entre projeto e canteiro, o grupo buscou três exemplos de projetos de arquitetura já realizados: COPROMO, uma habitação de interesse social construída por mutirão sob assessoria técnica da USINA ctah, SESC Pompéia, um equipamento de lazer e cultura projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi, e Escolas Transitórias de Goiás, idealizadas pelo arquiteto Lelé.

A partir disso, observamos a necessidade de ir a campo em busca de canteiros de obras mais porosos e abertos, assim,  visitamos duas obras: a restauração da Vila Itororó e o Instituto Moreira Salles.

A Vila Itororó, com uma proposta amplamente divulgada de canteiro aberto, teve essa iniciativa a partir da urgência de ocupação popular daquele espaço, principalmente por conta de seu histórico de resistência, pautado na luta contra o empreendimento elitista que acabou promovendo a remoção dos habitantes que antes ocupavam as casas. Para o grupo, a avaliação do canteiro, a partir de suas características espaciais, é bem acessível, pois pertence a um tipo de obra que está sendo realizada parcialmente de casa a casa, o que possibilita essa ampla abertura do canteiro para os visitantes e para a cidade, mesmo que ainda rodeada por tapumes.

O Instituto Moreira Salles, também com uma proposta mais acessível de canteiro, propõe uma televisão instalada na fachada de tapumes que divide a obra da Avenida Paulista e também possibilita observar de perto a obra através de visitas agendadas.Dessa maneira, tenta aproximar os transeuntes da execução do projeto. Para o grupo, a espacialidade do canteiro não é tão acessível quanto o da outra obra visitada, pois apesar da possibilidade de visita agendada ao canteiro de obras, o espaço não é facilmente apropriável, uma vez que apenas possibilita aos corpos dos visitantes uma circulação restrita.

Dessa forma, concluímos que a não-porosidade e a não-abertura do canteiro de obras está  vinculada ao tapume, tanto na sua presença material, quanto na sua presença ideológica, e, sobretudo, quando atrelamos o tapume como afirmador de um campo cego, que oculta o que entendemos por processo. Portanto, o grupo propõe um projeto de desconstrução e transgressão desse objeto-conceito, que, ao nosso ver, é bastante simbólico na ruptura de relações entre o desenho e o canteiro.

Fotografia: Rebeca Domiciano

Canteiro Vila Itororó – Bela Vista, SP.

Canteiro IMS – Paulista, SP.

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Buscando entender os canteiros de obra e sua relação com a cidade, concluímos que a etapa construtiva, antecedente da materialidade final do projeto, é fundamental para o conceito de processo. Para isso, nos aprofundamos nos escritos do arquiteto Sérgio Ferro e da arquiteta Lina Bo Bardi, os quais se esforçam para romper as barreiras entre projeto e canteiro, contribuindo para uma produção arquitetônica menos hierárquica e mais experimental.

Com base nessas leituras, buscamos entender as principais dinâmicas dentro de um canteiro de obra, sempre investigando as relações entre linguagem-obra e corpo-obra. Sendo linguagem-obra, uma investigação sobre as possíveis linguagens que podem ser transmitidas/desenvolvidas no canteiro, e corpo-obra, uma investigação sobre a pluralidade de relações entre as pessoas que participam cotidianamente da obra, as que projetam, as que constroem, as que virão a usufruir daquela espacialidade, ou mesmo as que moram/transitam no entorno da obra e também acabam participando dela.

Para isso, também a partir de uma reflexão pautada na dinâmica não tradicional e mais fluida entre projeto e canteiro, o grupo buscou entender o processo de três projetos de arquitetura já realizados, o COPROMO, o SESC Pompéia e as Escolas Transitórias de Goiás, e de dois outros projetos que estão sendo construídos, a restauração da Vila Itororó e a construção do Instituto Moreira Salles.

Dessa maneira, todo o processo de pesquisa teórica e prática do grupo resultou numa investigação sobre o que torna um canteiro aberto-fluido-poroso e, consequentemente, o que o fecha para a cidade, assim, concluímos que tudo isso está vinculado ao tapume. Esse elemento, tanto na sua presença material quanto ideológica, pode ser definido como um objeto-conceito que oculta o processo de trabalho dentro dos canteiros de obra e bloqueia sua vista para a cidade. Sendo assim, a ruptura do tapume é um gesto que se propõe a estabelecer relações mais abertas e flexíveis entre obra e cidade.

Assim, ao buscar nos tapumes o cerne da nossa proposição, aprofundamos a análise sobre um canteiro de obra já visitado e mapeado, o restauro das casas da Vila Itororó. Essa escolha se deu justamente pela forma mais aberta como o canteiro é gerido. Pois, mesmo se tratando de um canteiro muito acessível que busca ampliar as relações da cidade com o processo de obra e com a história da vila, identificamos uma série de potencialidades que viabilizam um projeto de intervenção ainda mais revolucionário do que a realidade atual. Nesse contexto, nos propusemos a discutir com mais radicalidade os tapumes dessa obra e sua relação com o bairro do Bixiga.

O projeto de intervenção procura estabelecer relação com a história da vila, desde sua construção nos anos 20 até os conflitos atuais, com sua arquitetura, monumental e surrealista, com seu entorno, rodeado pelo bairro do Bixiga e também com as características geomorfológicas do terreno, que possui acentuado desnível a partir da Rua Martiniano de Carvalho tornando-o um vale antes alagado pelo rio Itororó.

Além disso, ao discutirmos possíveis formas da cidade se debruçar sobre o canteiro, entendemos a Vila Itororó como um ponto muito estratégico. Pois, além de todas as potencialidades citadas, talvez a mais interessante seja a disposição espacial das casas e do canteiro dentro da quadra e as vistas que são geradas a partir dela. Dessa forma, a travessia por dentro da quadra vinculada a uma participação mais efetiva da cidade no canteiro resulta numa intervenção-projeto.

A proposta do projeto é realizar essa travessia usando andaimes como técnica construtiva, conectando a cota mais alta do terreno, na rua Martiniano de Carvalho onde também está a escadaria que antigamente dava acesso a vila, à casa oito, que foi recentemente restaurada e está localizada numa cota sete metros mais baixa no ponto de acesso oposto para a vila, na Rua Maestro Cardim.

A partir da escolha dos andaimes o grupo pretende dialogar com a linguagem já estabelecida dentro dos canteiros de obra e também explorar a flexibilidade construtiva desse material, uma vez que é uma técnica de montagem rápida, maleável, que se articula muito bem com a declividade do terreno.  Dessa forma, esse material também possibilita um percurso quase aéreo, que passa por dentro do canteiro, mas ao mesmo tempo só estabelece vínculos visuais com a arquitetura em ruínas e a obra de restauro, o que torna essa passagem ininterrupta, desvinculada aos horários de visita do canteiro e aos tapumes.

Fotografias: Marina Schiesari.

 

 

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