TEMPO LIVRE – G01

Bruno Buccalon, Caio Sertório, Clarissa Mohany, Fernanda Lins e Isadora Pinto.

ETAPA 1

ETAPA 2

Numa drástica inversão do que é supostamente a principal característica da cidade – ‘o negócio’ – a sensação dominante da Cidade Genérica é uma calma misteriosa: quanto mais calma for, mais se aproxima do seu estado puro. [ Rem Koolhaas in Generic City ] Esse trabalho tem como objeto de estudo o Shopping Campo Limpo, entendendo o shopping como lugar de intersecção de distintos grupos sociais e infraestrutura polarizadora de conexão, encontro e consumo. Para além da negação da cidade, da circulação labiríntica e da artificialidade, é urgente compreender o jogo de transformação ininterrupta que dá as cartas de sua constituição. Possuidor de uma lógica própria, proprietária e apropriável – através da transação -, existem diversos padrões e sistemas em operação no seu interior. Trata-se de um esforço de aproximação que minimize preconcepções e juízos ao observar os fenômenos em curso. Como filtro de observação, utilizamos os referênciais temáticos levantados por Rem Koolhaas ao longo de sua produção teórica, constantemente irônica, contraditória e heterodoxa. A partir de seus escritos, procuramos argumentos e hipóteses que permitissem ultrapassar clichês críticos da constituição desses espaços. Um emaranhado de manifestos, conceitos e opiniões ácidas que, lançando o olhar sobre o universo dos centros comerciais, nos auxiliaram a identificar e tensionar as generalidades e especificidades na operação do shopping em questão. Há uma tensão evidente entre a criação de identidade e a sensação de pertencimento. A virtualização que permite a manifestação de opiniões extremas e a livre criação de personalidades – potencializadas pela mobilização em rede – constitue o universo identitário da maior parcela da população conectada. O tempo livre é o momento de manutenção da persona. A presença física tem sua valoração transformada. Os pontos de encontro passam a carregar camadas de significação para além da suas funções e desígnios originais. Simultaneamente, em variados contextos urbanos, o shopping é e representa o lugar social de fortalecimento das identidades através do consumo. Entretanto, para além do que é evidente, existe um universo oculto. Um conjunto de nós técnicos e humanos. Quem são os responsáveis pela operação cotidiana do shopping? Qual é a fisicalidade daquilo que não deve aparecer? Quais são as tensões coorporativas e seus respectivos espaços? Desvendar aquilo que está nos bastidores pode nos aproximar daquilo que estrutura a calma misteriosa desses espaços.

ETAPA 3

A barreira se revela, a fachada se rebela ao ser cortada; a textura divergente surge e separa o ambiente convivido por iguais. O pastiche alaranjado público se difere do corredor escuro de tijolos aparentes. Quem faz o tempo livre? O fastfood nos revela a velocidade, de tempo, lazer e saciedade momentânea; o mesmo método do automóvel, este uma barreira, física e estática, estacionada servindo de infra pública ao passageiro e possível cliente. Vamos potencializar isto! Bradam os empreendedores, transformem o carro em textura! Gritem a fachada, ela não deve esconder nada, evidencie o automóvel, adorno do século populista, símbolo do IPI reduzido. / Agora este não é barreira, é símbolo, faz-se presente ao espaço público, conforma uma nova área, o local do ver e ser visto passa o protagonismo ao carrossel de carros! Dinâmico, quem diria, Marinetti, o futurismo voltou; agora estampado de forma populista, tão pop quanto o Pompidou. O que resta para ser escondido? O cerne do negócio visualizou a nova textura, dissecada e adornada do carro, a publicidade e o marketing querem ser arquitetura / O blockbuster mostrado no calendário do seu cinema interno agora se torna exterior, público! Admirem do metro a fachada de seus carros travestidas de publicidade do Transformers. / A fachada é pop, estreiem Velozes e Furiosos aqui, a fachada é o grande outdoor, subversiva a lei cidade limpa. A massa se apropria, se torna espetáculo, o pedestre na fila a pé vê seu carro estampando a fachada mecanicista. A praça ao dia é transitória, não quer ser cívica, nem precisa, o shopping cumpre seu papel, sabotando a arquitetura. O que interessa é sua noite, roubando do centro comercial o espetáculo, o cenário de carros é o cenário da festa, do baile funk, de carros se olhando, enquanto festeiros a pé ligam seu som potente e tornam a cidade viva, acima do bem e do mal.