PASSAGENS – G18

JULIA BRANT DE CARVALHO DAUDÉN, STEPHANIE RIETH DE LIMA, MARINA DAHMER BAGNATI, CARLOS FERNANDO RUIZ RODRIGUEZ, XAVIER MARTIN

1ª ETAPA

“Passagens”, palavra que permite muitas camadas de percepção dependendo do campo semântico escolhido para interpretá-la. No sentido temporal, de passagem de tempo, ganha forma subjetiva de compreensão e relaciona-se a uma leitura do passado em relação ao presente, do presente em relação ao futuro, passado e futuro, e todas as possíveis ligações entre tempos distintos. A ligação ou, mais ainda, a transformação relativa aos tempos pode ser uma passagem.
Considerando isso, é impossível pensar a passagem do tempo descolada de uma noção espacial, isto é, passagem no espaço também. Muitas vezes, a única forma de percepção de passagem do tempo reside na análise de mudanças espaciais, transformações físicas e novos cenários de um mesmo lugar, contexto ou objeto.
Essas duas vertentes principais de entendimento das passagens leva-nos a pensar, então, em algum lugar na cidade de São Paulo que reúna tais interpretações e, mais ainda, que mostre a inexorabilidade entre as duas abordagens tempo-espaço.
O bairro da Barra Funda veio à tona quando, ao identificarmos três elementos norteadores da análise no bairro, conseguimos entender a dimensão dessa discussão no cenário urbano consolidado. Os três elementos direcionais levantados foram a linha do trem – um histórico divisor da cidade, uma barreira na paisagem, uma linha de deslocamento físico, que ao mesmo tempo que segrega os bairros da Barra Funda e Campos Elísios, liga pontos importantes da cidade e da, pelo som que o trem faz ao passar no trilho, um ritmo próprio ao local e marca a temporalidade cotidiana dali; além disso, o transporte ferroviário, historicamente, representou parte significativa do passado brasileiro que, um dia, teve uma vasta linha férrea subjugada mais tarde ao modelo rodoviário e deixada ao abandono. Por outro lado, em tempos de discussão latente de modais públicos de transporte em um tecido tão consolidado como é o caso de São Paulo, o trem talvez seja uma importante solução para o futuro; a discussão está em pauta e o resgate desse modal é tema central; – o “pontilhão”, passagem elevada de pedestres que vence o obstáculo da linha do trem, liga o bairro da Barra Funda aos Campos Elísios e cria, pela precariedade de sua disposição e forma, um espaço próprio, uma vez que é dotado de muros altos, com cerca de 1,80 metros de altura que impossibilitam a vista ao trem, mas que ainda permitem ouvi-lo e vê-lo em pequenas aberturas verticais ao longo do percurso na passarela. O pontilhão é, ainda, usado como dormitório e banheiro; – e, por último, o próprio bairro e sua tipologia histórica de pequenas casas que está em eminência de transformação pela chegada de empreendimentos da especulação imobiliária ao local. Linha do trem, pontilhão e bairro são os três elementos fundamentais de análise escolhidos para a aproximação com o bairro. A intenção é que a partir da compreensão de cada um deles e de suas relações cruzadas possamos entender qual é a demanda existente para propor algum tipo de intervenção.
Em um segundo momento de discussão foram levantadas referências que auxiliaram no encadeamento de raciocínio acerca das passagens e suas dimensões. A mais importante delas é o conjunto de obras do artista Richard Serra que, em seu trabalho, sempre lida com a relação escultura-espaço e, com isso, ressignifica esses lugares e cria novos ritmos na compreensão desses. No texto “de richard serra para os arquitetos” na sexta edição da revista Caramelo, Agnaldo Farias coloca “Para Serra, a escultura, na medida em que é compreendida como um abjeto plástico portador de uma tensão real, não pode ser vivenciada a não ser pela experiência sensorial do espectador. Experiência plena que, como se verá mais adiante, não se esgota no olho – este órgão tão próximo da razão apriorística -, mas que se realiza no tempo cuja fecundidade se manifesta nas sensações diferenciadas frequentemente estranhas que a permeiam. Aludir à tensão real do objeto plástico é o mesmo que aludir ao fato de que uma escultura refere-se diretamente ao corpo de quem a contempla.”. Esse discurso sobre a escultura pode, para nós, estender-se ao campo da estrutura, dos edifícios e, de forma geral, aos objetos “escultóricos” na cidade que são estes plenamente experienciados pela visão e pela relação entre eles e o corpo.

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2ª ETAPA

Operações: aproximar, costurar, transpor.

Avançando no sentido de compreender o local escolhido pelo grupo, o pontilhão de pedestres da Barra Funda mostrou-se um elemento que traz à tona uma série de questões importantes para a compreensão do bairro, da relação – ou ausência dessa – com o bairro dos Campos Elísios, e, sobretudo, questões que envolvem a relação da cidade com sua linha férrea e outras barreiras físicas existentes.
Levando em conta, a partir das discussões posteriores à primeira entrega, que mantêm-se as pautas da passagem como universo de entendimento amplo e relativo a tópicos como tempo, deslocamento, espaço e relações espaciais, a continuidade da análise da situação encaminhou-se no sentido de pensar, primeiramente, se a intervenção do grupo orientaria-se pela permanência ou retirada do pontilhão existente. Para tanto, pensamos que, este elemento específico escolhido, repete-se pela extensão da linha férrea, e que representa locais de degradação dos bairros circundantes a ela, dado gerado pela aproximação da cidade com a linha do trem, que chega sem força até ela. Assim, a manutenção dessa estrutura tal e qual está dada hoje seria, de certa forma, insistir em um “módulo” construído na cidade como uma forma absolutamente burocrática de transposição da linha e sem aparente, a primeira vista, justificativa de implantação nos locais onde está distribuído e sem contribuição para qualificação urbana das áreas que une. O quadro, reverso do que se pretendia, é a desconexão total de tudo: pedestres, trem, e cidade.
Apesar disso, após uma aproximação mais cuidadosa, é possível especular que sua implantação se justifique por uma continuidade da malha urbana dos dois lados do pontilhão, nesse caso, do lado da Barra Funda e dos Campos Elísios. Portanto, para não subjugar esta função teórica, porém frustrada, de ser um elo entre os bairros pensamos em estabelecer esta ligação de forma definitiva e real, tomando o trem, agora, como elemento de aproximação local – dado que é um modal de transporte e infra-estrutura urbana totalmente consolidado -, e aproveitando a malha existente dos dois bairros como ponto de partida para criar uma transposição por baixo da linha férrea que seja, a partir da geração de uma nova topografia para o local, uma ligação adequada à escala e demanda de seu uso cotidiano.
Foi de extrema relevância, ainda, compreender a totalidade da situação gerada nos arredores do pontilhão em termos da escala urbana. Isso quer dizer, entender como os fluxos culminam para aquele local e, então, questionar a implantação desse aparelho na cidade, para decidir se as transposições se justificam em termos de localização. Para isso, retoma-se o olhar distanciado que considera a malha urbana, e, mais pontualmente, a disposição das quadras que acompanham a linha do trem dos dois lados. Em muitos casos é possível notar que as ruas mais próximas às descidas do pontilhão, diferente das continuidades imediatas dele, ganham um movimento peatonal maior durante o dia, o que anima estes locais de forma significativa. Além disso, a presença, nas bordas do trem, de uma série de tipologias essencialmente habitacionais e rompida, muitas vezes, nestes pontos paralelos às descidas, que recebem outros programas comerciais, institucionais e de serviços de forma mais intensa, criando uma forte dimensão de vizinhança e uso contínuo dos espaços pelos pedestres. O maior exemplo encontrado dessa situação é a Rua Barão de Limeira.
Assim, neste ponto, o processo de discussão enfrentou um momento de decisão, mais do que simplesmente da resolução da transposição, mas uma decisão política em relação a situação existente. A geração de um discurso intensional, pelo desenho, inclinou-se no sentido de costurar e aproximar as áreas envolvidas na discussão a partir do entendimento de que trata-se de uma confluência de modais, de situações diversas de deslocamento pela cidade e de infra-estrutura urbana e, mais ainda, trata-se de um momento na história dos bairros de intensa transformação: novos empreendimentos, novos usos e fluxos, a ocupação, principalmente da Barra Funda, por instituições de ensino, oficinas cooperativas, centros de produção de mobiliário, usos que não remontam à típica ocupação por, principalmente, sobrados, galpões de marcenaria e serralheira e oficinas de automóveis.
A compreensão geral da situação colocada ao lado da compreensão das especificidades locais gera como decorrência natural do processo o novo desenho do espaço de transposição a fim de vincular, não hipoteticamente, mas de fato, os bairros e, portanto, estabelece relações entre a cidade como um todo.
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3ª ETAPA